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A reabilitação dos Habsburgos na Hungria

26 de abril de 2017 - 4:13:23

Em setembro de 1944, um verdadeiro rolo compressor soviético submerge a Hungria, esta monarquia sem rei dirigida desde 1º de março de 1920 pelo almirante Miklós Horthy de Nagybánya. Sufocado entre seus aliados nazistas e as tropas de Stalin, Horthy vê seu regime autoritário e nacionalista vacilar sob os golpes da foice e do martelo. No dia 13 de fevereiro de 1945 Budapeste cai depois de um mês de cerco. Os comunistas ocupam o país, votam pela queda dos Habsburgos e proclamam em seguida a república. 27 anos depois da queda do muro de Berlim a Hungria se reconcilia com seu passado e reabilita sua dinastia real. Um Habsburgo hoje poderia novamente cingir a coroa de Saint-Etienne?

Teatro de ambições territoriais (Áustria e Turquia) e lutas internas entre magnatas (nobres) desde o século XVI, a Hungria cai definitivamente no domínio dos Habsburgos em 1715. O imperador Carlos VI proclama então a indivisibilidade da Hungria e das províncias hereditárias dos Habsburgos em troca de um compromisso com os magnatas. Se as revoltas aristocráticas continuam a se multiplicar, a Hungria permanece mesmo assim fiel a sua dinastia. Com ela, a Hungria afronta a Revolução Francesa e as promessas de independência de Napoleão I, que têm poucas repercussões. A “Primavera dos Povos”  vê o despertar do nacionalismo húngaro. Ainda hoje, o efêmero líder da revolução (de março de 1848 a agosto de 1849), Lajos Kossuth permanece um verdadeiro ícone entre seus concidadãos. A repressão é feroz, mas de 100 agitadores desta rebelião são fuzilados ou enforcados. Entre os exilados julgados à revelia se acha o conde Gyula Andrássy. Com seus cabelos escuros, encaracolados e desordenados, e seus olhos negros, o conde é o próprio estereotipo do húngaro. Ele será, com a Imperatriz Elizabeth d’Áustria, o articulador da reconciliação entre a Austria e a Hungria. No dia 30 de março de 1867, é restaurada uma Dieta que vota pelo compromisso estabelecendo a dupla monarquia da Áustria-Hungria. O governo e o parlamento do reino da Hungria, do qual Francisco José I e Sissi recebem a coroa, serão a partir daí responsáveis somente diante do imperador. Permanecendo feudal, a sociedade húngara do século XIX é desigual. A nobreza mantém em suas mãos a maior parte dos poderes políticos (principalmente os dos magnatas calvinistas Tisza de Borosjen e Szeged, que dirigirão o país entre 1875 e 1917, de pai para filho) e econômicos (um terço das terras agrícolas lhe pertencem). A deflagração da Primeira Guerra Mundial dividirá profundamente o país. Há aqueles que, como o conde Mihály Károlyi de Nagykáry, pregam a prudência e outros, como o conde Albert Apponyi, que veem aí um meio de engrandecer o país na hora da ascensão dos nacionalismos. Budapeste coroa em novembro de 1916 seu último rei. Carlos IV de Habsburgo-Lorena (1887-1922) sucede a Francisco José, que morre depois de 68 anos de reinado. Suas tentativas de paz em separado e de federalização do império não sobreviverão à “kaiserlich und königlich” (K. und K.) (1). Em outubro de 1918, em algumas semanas, o regime dos Habsburgos na Hungria cairá (Revolução dos Crisântemos ). O antigo primeiro-ministro István Tisza é assassinado e o conde Károlyi, que tinha sido nomeado chefe de um governo de coalizão pelo regente e arquiduque-palatino Joseph de Habsburgo-Lorena, aproveita a confusão para proclamar a república em 16 de novembro de 1918.

Por pouco tempo. Os comunistas de Béla Kun organizam um golpe de estado e proclamam a República dos Sovietes num clima de patriotismo crescente. De fato, uma comissão francesa tinha, depois da guerra, estabelecido novas fronteiras favoráveis à Romênia, acentuando o descontentamento e a frustração dos magiares. É no entanto essa mesma França que, para conter “o perigo vermelho em suas fronteiras”, irá sustentar uma contrarrevolução, tendo como líder o antigo ajudante de campo de Francisco José, o almirante Miklós Horthy, que entra triunfantemente em Budapeste no dia 6 de agosto de 1919. O arquiduque José retoma então a chefia do estado húngaro e procura favorecer o retorno do Imperador da Áustria Carlos sobre seu trono húngaro. Os aliados temem, no entanto, que um retorno dos Habsburgos desestabilize a Europa Central e forçam o arquiduque a renunciar no fim do mês em favor de Horthy. Mas Carlos IV não se conforma com a situação. Se ele se “afasta dos negócios públicos”, ele não abdica e permanece rei da Hungria. Por duas vezes, ele tenta em vão recuperar seu trono (março e outubro de 1921). É um fracasso, Horthy pretexta que não pode garantir a segurança do monarca e envia suas tropas. Carlos deve deixar a Hungria, esta monarquia sem monarca, para um exílio sem retorno.

O regime de Miklós Horthy tem todas as aparências de uma democracia. Se há uma oposição parlamentar, é o almirante que governa como verdadeiro soberano autoritário sobre o país. Entre 1926 e 1935, o Partido Legitimista permanece como o segundo partido de oposição do país. Horthy não pode ignorar os monarquistas. Contra ele está o conde Antal Sigray, representante do arquiduque Otto de Habsburgo-Lorena (1912-2011), o filho caçula de Carlos II. Ele propõe a instauração de uma monarquia social e cristã, combinando vários movimentos realistas, organizando uma grande manifestação na capital e se opondo às leis raciais votadas em 1938. A invasão nazista da Áustria em 1938, batizada com o nome do pretendente ao trono (plano Otto), arruinará as últimas esperanças dos monarquistas. Horthy aceita rapidamente colaborar com o chanceler Hitler. Ele recupera assim as partes húngaras da Tchecoslováquia e da Romênia. Ele vinga o humilhante tratado de Trianon que os Aliados tinham imposto à Hungria no dia 4 de junho de 1920 e que tirara do país 2/3 de sua superfície. Mas a omnipresença dos nazistas nos negócios húngaros logo ameaça fazer o país passar para o lado dos aliados. O primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, se mostra então favorável a uma Confederação de Estados Danubianos sob a autoridade de Otto de Habsburgo-Lorena. A regência logo não pode mais suportar a pressão alemã que põe no poder um novo regime colaborador que deporta milhares de monarquistas, entre os quais Sigray. Ao regime pró-nazi sucede um outro, controlado pelo exercito vermelho. No dia 16 de novembro de 1945, o cardeal Primaz da Hungria József Mindszenty, fervoroso legitimista, recebe a visita do Primeiro-Ministro Zoltán Tildy. A entrevista é conflituosa. Ela indica a mudança. A mais alta autoridade eclesiástica católica do país se opõe a criação de uma república. O governo pró-soviético responde fazendo votar uma “lei pela proteção da República” e o faz aprisionar (1949-1956) por atividades contrarrevolucionárias.

Durante toda sua vida, Otto de Habsburgo se baterá contra a ideologia comunista na Húngria, da qual ele se torna o soberano titular. Ele acompanhará com intensidade os eventos de Budapeste em 1956. Ele multiplica as declarações à rádio, mobiliza seus contatos internacionais nas Nações Unidas. Em vão.

Quando o comunismo mostra seus primeiros sinais de erosão, os Habsburgos fazem um retorno inesperado. No dia 13 de julho de 1988, sem prevenir as autoridades comunistas, o arquiduque desembarca em Budapeste durante 48 horas, os pegando de surpresa. É um triunfo. A dinastia não tinha sido esquecida e se torna uma alternativa. Em 1990, lhe é proposta a presidência de uma Hungria libertada. Ele recusa, preferindo lutar pela integração da Hungria ao seio da Europa. Mas aquele que marcou os espíritos organizando um “piquenique na fronteira”, permitindo a milhares de alemães do leste fugir, inviabiliza na prática os esforços do Partido Legitimista Húngaro (Magyar Legitimista Párt) que tenta entrar no parlamento (o movimento deverá cessar suas atividades políticas em 1998).

Seu filho caçula, o arquiduque Georg de Habsburgo-Lorena, se instala na Hungria. Ele não é, no entanto, o único Habsburgo a viver no país. O ramo palatino, representado hoje em dia pelo septuagenário arquiduque Géza, nunca deixou o país, apesar das confusões políticas e de suas diferenças com a imperatriz Zita, que supunha ter o arquiduque Joseph tentado apoderar-se da coroa enquanto era regente. As negociações para a entrada da Hungria na União Europeia levam o governo socialista do primeiro-ministro Gyula Horn a nomear o arquiduque Georg embaixador em 1996 e depois presidente da cruz-vermelha húngara em 2005. A nostalgia do antigo império permanece presente nas consciências húngaras. Como prova disso, seu casamento em 1997 atrairá milhares de húngaros à igreja de Saint-Etienne.

A reabilitação dos Habsburgos conhece seu apogeu com o segundo governo do primeiro-ministro Viktor Orban (a partir de 2010). O conde Albert Apponyi, principal líder do movimento monarquista do período de entreguerras, tinha resumido assim o legitimismo húngaro: “o legitimismo não é uma questão de partido, mas a garantia constitucional de nossa integridade e a continuidade de nossa fé”. Viktor Orban o compreendeu bem e insufla um vento néo-horthysta em sua política nacionalista. Ele multiplicará os gestos em favor da antiga dinastia real. A começar por modificar a constituição, deixando a questão do retorno da monarquia aberta (2011). A palavra república é suprimida e se acrescenta um novo preâmbulo: “Que Deus abençoe os Magiares”. Todo o cerimonial relembra o que foi o reino da Hungria até nos uniformes dos guardas da coroa de Saint-Etienne. Quando da morte do arquiduque Otto de Habsburgo em 2011, o governo envia suas condolências oficiais à família imperial e representantes a seus funerais, organiza missas e observa um minuto de silêncio no parlamento em memória daquele que foi seu rei até 1946. Em 7 de dezembro de 2015, é outro membro do braço palatino, conhecido por seu conservadorismo ultracatólico, que é nomeado embaixador da Hungria na Santa Sé (o arquiduque Edouard). Os Habsburgos acabam de ocupar seu lugar como “campeões do catolicismo” ao seio da Europa Central. De apoiadores… os Habsburgos não têm falta deles! O deputado fundador do Partido Jobbik, Gábor Vona Zázrivecz, numa entrevista em 2013, declara não se opor ao retorno dos Habsburgos sobre o trono e ainda no último novembro, o ministro de Recursos Humanos, Zoltán Balo, que não esconde sua admiração pela dinastia enquanto o país celebrava o centésimo aniversário da coroação do Imperador Carlos I como rei da Hungria, inaugurando em plena Budapeste e oficialmente com os arquiduques Karl de Habsburgo-Lorena, pretendente à coroa Austro-Húngara, e seu irmão Georg um busto do avô deles.

E quanto à restauração da monarquia? Alguns a vislumbram, como o Partido monarquista constitucionalista húngaro ou o Partido do Reino Húngaro (Magyar Királyság Párt), que fazem campanha nesse sentido. Daí em diante, o país se enfeita com todos os adornos da antiga regência. À frente da contestação anti-európeia (principalmente sobre a questão dos emigrantes, sobre a qual Georg de Habsburgo, embaixador itinerante, apelou à Europa que reveja sua política de integração), a Hungria ajuntou um passo suplementar em sua política de reconhecimento de sua dinastia adquirindo há algumas semanas os arquivos pessoais do arquiduque Otto de Habsburgo-Lorena em detrimento de seu vizinho austríaco. A história dos Habsburgos na Hungria ainda não terminou de ser escrita e ela poderia muito bem recolocar sobre suas cabeças a coroa de Saint-Etienne!

(1) Nota do Tradutor:
Kaiserlich und Königlich”, literalmente “Imperial e Real” em alemão, conhecida também pela sigla “K. und K.”, é uma referência ao status jurídico das monarquias austríaca e húngara: o monarca Habsburgo era ao mesmo tempo Imperador da Áustria e Rei da Hungria.

Publicado no site Vexilla Galliae

Tradução: Flamarion Daia