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Convocação lembra a de Collor, mas é chavismo em estado puro

11 de junho de 2005 - 0:00:00

por  Reinaldo Azevedo

Ao convocar sua militância para tomar as ruas o PT mimetiza no Brasil o que os seus congêneres de esquerda têm feito continente afora.

O PT, ficou claro na entrevista coletiva do presidente do partido, José Genoino, e do tesoureiro da legenda, Delúbio Soares, vai pedir à população que se vista de vermelho. Vai, em suma, pra galera. Delúbio especificou o público que ele espera estar presente no que chamaram de “ato em defesa do PT”: os filiados do partido, as ONGs, o MST e a “sociedade petista”, aqueles que, segundo ele, não sendo ligados à legenda, têm simpatia por ela. O ato, segundo os dirigentes, será em defesa do partido, mas também contra a corrupção no país. Não poderia ser mais orwelliano do que isso. É pura “novilíngua”: a coisa é o rigoroso contrário da palavra. Explicável: a distopia criada por George Orwell é parente moral da utopia petista. Estão todos em casa. Mas sigamos: eis aí. Chegou a hora de o PT brincar com o perigo. E ele, claro, brinca.

O último que conclamou a população a sair às ruas em defesa do governo foi Fernando Collor, naquele pedido patético para que os brasileiros se vestissem de verde e amarelo. No outro dia, o país estava coalhado de gente envergando luto. Não será ainda o caso desta vez. Até porque, à sua maneira, Delúbio e Genoino sabem o que fazem: parte dos que usaram preto contra Collor vestirá vermelho, desta vez, a favor de Lula. Muito bem: a similaridade com o ex-presidente se esgota aqui. A partir deste ponto, sai Collor, entra Hugo Chávez como inspiração do petismo. Àqueles sempre muito seduzidos e encantados com a conversão do PT à democracia, está sendo dada a primeira lição: esses caras não temem crise, não, senhores! Eles investem nela porque acreditam que, ao fim, saem sempre ganhando. Assim fizeram ao longo de 25 anos e foram bem-sucedidos.

Acuados por denúncias, descendo a ladeira da ética, dos bons costumes políticos, da decência, da funcionalidade, da governabilidade, restou o quê? Partir para a clivagem que sempre esteve subjacente ao discurso do próprio Lula: de um lado, o povo pobre, sedento de justiça; de outro, as elites. O ato proposto é um sinal de que eles se julgam prontos a ir para o confronto. Golpeiam as instituições; tratam o Parlamento como um lupanar; aparelham o Estado; privatizam o destino do país, colando-o ao do partido, e, ora vejam, na hora em que as coisas apertam, fazem o quê? Denunciam a desestabilização. Como se não fossem eles mesmos a desestabilizar o país, o governo e as próprias instituições.

Tudo isso estava escrito e inscrito na estrela. Alguns, como nós (e não fomos os únicos, felizmente), viram e acusaram o risco precocemente; outros perceberam, mas julgaram, sei lá, que o país deveria cumprir uma espécie de carma (eu, hein…); uns poucos, com certa soberba, acreditaram que a razão sempre triunfa no fim (o que é uma inverdade provada cotidianamente pela história); muitos, mais cínicos, apostaram que era possível encabrestar o petismo e ainda colher alguns lucros com isso.

Pois bem. Se é assim, então é chegada a hora de a sociedade civil não se deixar intimidar pelo apparatchik. Antes que prossiga, retomo, como parêntese, o que escrevi na edição anterior. Usando a expressão do colunista Antonio Fernandes do site e-agora (Notas:


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 Primeira Leitura em 08/06/2005.