Brasil


Um dia acordaremos

Nada há de errado em que um partido da base exija, no governo, espaço correspondente aos votos parlamentares que agrega. A tragédia moral se instala quando os deputados, individualmente, passam a negociar seus próprios votos.

É da natureza do pluripartidarismo, em qualquer sistema de governo, que as tarefas deste sejam conferidas aos partidos que o assumem, quer se apresentem como blocos, frentes, coalizões ou coligações. No Brasil, a instituição do segundo turno, inclusive, antecipou esse tipo de acordo para um momento anterior ao confronto eleitoral definitivo. Arranjos com vistas à conquista da maioria dos votos parlamentares só não ocorrem onde o espaço eleitoral é ocupado por apenas duas legendas antagônicas.

Portanto, não há novidade ou escândalo no rateio de cargos entre os partidos da coligação vencedora de um pleito, nem na atração de novas siglas para a base de apoio, se isso for conveniente, através de sua integração aos postos de comando providos pelo governo. Durante muito tempo, no Brasil, os acordos firmados entre os partidos exerciam força moral sobre a respectiva base parlamentar e as coligações majoritárias articuladas no pleito se mantinham durante todo o período de governo. Quando ocorriam desentendimentos e rupturas ao longo da gestão, as representações discordantes bandeavam-se, em bloco, para a trincheira oposicionista.

De uns tempos para cá isso mudou. Não basta ao governo agregar apoio entre legendas cujas cadeiras, somadas, representem a desejada maioria. Os acordos não se expressam biunivocamente na base parlamentar. Não basta compor a maioria. É preciso conservá-la a cada votação importante. O mensalão e o valerioduto são as mais famosas evidências dessa dificuldade e das graves implicações éticas que nela se enrolam. No entanto, reitero: nada há de errado em que um partido da base exija, no governo, espaço correspondente aos votos parlamentares que agrega. A tragédia moral se instala quando os deputados, individualmente, passam a negociar seus próprios votos.

Aqui, sim, há um problema. Mas mesmo esse, resulta minúsculo em relação a outro que decorre da fusão que, no Brasil, fazemos de coisas tão distintas quanto são o Estado, o governo e a administração. Ao unirmos tudo isso numa só pessoa, partidarizamos não apenas o governo, o que é normal, mas incluímos no pacote o Estado e a administração. Como decorrência, debilitamos a noção de Estado; enfraquecemos o governo que precisa negociar até mesmo o inegociável; e tumultuamos a administração. Através desta, que deve ser do Estado e não do governo (onde não há mais do que umas poucas dezenas de posições de mando), as peças de negociação no tabuleiro do poder saltam para dezenas de milhares, em prejuízo da competência e da profissionalização nas carreiras do serviço público, cujas direções e chefias estão sempre sob comando das legendas políticas.

Um dia, acordaremos. Deixaremos, então, de reclamar das conseqüências e passaremos, olhos abertos, mente alerta, a buscar as causas dos problemas dos quais nos queixamos. Elas estão no sistema político adotado pela Constituição Federal para o conjunto dos entes federados. Enquanto não fizermos isso, continuaremos, tolamente, a pensar que as coisas vão melhorar quando as pessoas nascerem mais virtuosas e quando os eleitores se tornarem mais zelosos, porque é exatamente isso o que presumem e ensinam quase todos os que influem na opinião pública.

CSS agride a classe média

Uma nova contribuição nos moldes da CPMF seria aceitável se fosse acompanhada pela total eliminação da contribuição ao INSS sobre a folha de pagamento das empresas e também uma significativa elevação dos limites de isenção do IR sobre os rendimentos do trabalho.

A recriação da CPMF, batizada de CSS, revela impressionante inabilidade política do governo e de sua base parlamentar. Apesar de ser um bom tributo, o imposto do cheque foi travestido de vilão. Houve mesquinharia política, e outras razões menos nobres, para explicar por que condenaram a CPMF -referida pelo renomado tributarista Vito Tanzi como uma das mais importantes inovações tecnológicas tributárias dos últimos anos – a assumir o papel de bode expiatório.

No entanto, cabe lembrar que a CPMF é repudiada se for um tributo a mais a elevar a carga tributária brasileira. Porém seria aceita pela sociedade se fosse instituída como substituta de outros tributos. Levantamento realizado pela empresa Cepac – Pesquisa & Comunicação revela que 64% das pessoas a aceitariam se ela substituísse, por exemplo, a contribuição ao INSS incidente sobre a folha de pagamento das empresas.

Nesse sentido, há em tramitação na Câmara dos Deputados a PEC 242/08, do Partido da República, que propõe a criação de um tributo de 0,5% sobre débitos e créditos bancários, que permitiria a total eliminação da contribuição ao INSS sobre a folha de pagamento das empresas e também uma significativa elevação dos limites de isenção do IR sobre os rendimentos do trabalho.

Com base na arrecadação da CPMF em 2007, a aplicação de 0,5% sobre as movimentações bancárias geraria uma arrecadação anual superior a R$ 48 bilhões. Isso permitiria que o governo aplicasse na área da Saúde os recursos adicionais previstos na Emenda 29 , cerca de R$ 10 bilhões por ano, e daria condições para que fosse ampliado o limite de isenção do IRPF para os assalariados que recebem em torno de R$ 13 mil por mês, que é a grande maioria. A PEC do PR , em vez de caminhar nessa direção, com apoio da sociedade, principalmente dos assalariados e da classe média brasileira, o governo e sua base parlamentar metem-se numa fria ao optar pela simples recriação da CPMF.

A ex-ministra Marta Suplicy, em recente entrevista, afirmou que precisa reconquistar a classe média que a abandonou nas últimas eleições municipais e deu a vitória a José Serra. O presidente Lula não deve se esquecer de que foi a classe média que o levou à Presidência e que ele perdeu todas as vezes em que a afrontou..

Hoje, a criação da CSS representa uma agressão à classe média brasileira. O presidente Lula parece não enxergar o que Marta Suplicy já percebeu: não há como continuar com uma política pública que privilegie apenas os interesses da base e do topo da pirâmide econômica, jogando a classe média assalariada aos leões.

Notas:

Publicado pelo Diário do Comércio em 12/06/2008

Abaixo a privatização da Petrobras!

O circo montado pela Secretaria de Comunicação Social no dia 8 serviu a muitos propósitos e, sem dúvida, pode ser considerado um retumbante sucesso. De cara, serviu de pretexto para que as autoridades petistas sinalizassem todo o seu apreço pela manutenção do “monopólio enrustido” da Petrobras .

“Você acha que nós vamos entrar para a OPEP, Dilma?”

(Dom Lula I – o mais novo magnata do petróleo, segundo o seu colega venezuelano Hugo Chávez)

Os mais crédulos certamente irão pensar (e acreditar) que tudo não passou de uma enorme coincidência, mas o fato é que a notícia oficial da “descoberta” daquela que seria a maior reserva de petróleo do país – cujo potencial de produção, segundo a empresa, varia de 4 a 8 bilhões de barris – veio a público em meio a um turbilhão crescente de críticas provocado pela estapafúrdia atuação do governo no recente qüiproquó do gás natural e, exatamente, na véspera da divulgação de mais um balanço com os resultados (no mínimo) pífios da Petrobras – a jóia da coroa do nacionalismo tupiniquim.

O anúncio causou forte impacto, especialmente porque os esbirros petistas, alojados na grande imprensa amestrada (com as exceções de praxe), esmeraram-se para cumprir seu papel de divulgadores dos interesses governistas, ainda que a notícia fosse requentada, já que especialistas do setor estavam “carecas” de conhecê-la, tendo a mesma sido dada, em primeira mão, pelo jornal Gazeta Mercantil, em 6 de setembro de 2005.

Quem quiser acreditar nos dados e relatórios divulgados no dia 8 de novembro, inclusive quanto à viabilidade tecnológica e econômica de se retirar – a curto prazo – petróleo e gás a 7 quilômetros de profundidade, abaixo de uma espessa barreira de sal e distante 250 quilômetros da costa mais próxima, que acredite. No entanto, acho que, antes, seria conveniente colocar alguns fatos históricos na balança para não perder de vista o estilo dessa gente:

A – Em 2005, foi anunciado ao país, com toda a pompa e circunstância (características, aliás, inarredáveis do agressivo marketing político petista), que a Petrobras havia alcançado um patamar de produção suficiente para que o Brasil pudesse ser considerado auto-suficiente em petróleo.  Nacionalistas, protecionistas e estatistas de todos os matizes rejubilaram-se com o grande acontecimento, mas eis que tudo não passou de uma grande jogada de marketing. Seja pela incompatibilidade entre o petróleo tirado da plataforma continental (pesado) e as características das refinarias locais, preparadas para processar óleo leve, ou mesmo pelo aumento da relação consumo/produção, a verdade é que, até setembro de 2007, a conta petróleo (óleo cru e derivados, exceto gás natural), segundo dados da ANP(1), apresenta um déficit de, aproximadamente, US$ 1,7 bilhão.

B – Quando foi anunciada a descoberta do campo de gás natural de Mexilhão, em 2005, as reservas iniciais estimadas (e amplamente propagadas na imprensa) eram de 400 bilhões de metros cúbicos. Hoje, estima-se que sejam de 250 bilhões e os menos otimistas ainda acham o número alto. Já o prazo de início das operações também foi revisto, passando de 2008 para 2009(2).

C – Em 1974, anunciou-se que o Campo de Garoupa, na costa do Rio de Janeiro, seria um reservatório de 800 milhões de barris de petróleo. A realidade futura mostrou que o número era muito menor do que isso, um quarto para ser mais exato(2).

D – Quando foi anunciada a descoberta do Manancial de Caioba, nos idos de 1970, estimou-se uma produção média diária de até 500 mil barris/dia (haja megalomania).  Depois que o mesmo entrou em operação, concluiu-se que produziria não mais que 30 mil barris/dia(2).

E – Em 2003, a ANP anunciou a descoberta de um “campo gigante” em Sergipe. Na ocasião, a agência de petróleo divulgou uma estimativa de 1,4 bilhão de barris de petróleo. A informação foi depois negada pela então Secretaria Nacional de Petróleo, Gás e Combustíveis Renováveis, para quem a projeção girava em torno de 370 milhões de barris, ou pouco mais de 25%. A divulgaç ;ão precipitada gerou especulações à época, inclusive com suspeitas de favorecimento de investidores(2).

Para começar, segundo a Folha de São Paulo, “o presidente Lula havia antecipado a informação sobre o megacampo a governadores em visita a Zurique, no final de outubro.” Eram, salvo engano, 13 governadores presentes, sem contar os indefectíveis assessores. Vocês acham que existe alguma hipótese de que todos eles tenham guardado a informação em segredo? Ora, dirão os defensores do bufão, “é evidente que o presidente não fez por mal ou com segundas intenções”. Concordo. Acho inclusive que foi tudo pura fanfarronice, onde a vaidade do falastrão falou mais alto, como de hábito. Em todo caso, tenha havido dolo ou não, trata-se de um assunto que não pode deixar de ser investigado.  Alô, CVM!  Alô, Ministério Público!

Só para que se tenha idéia da irresponsabilidade e do absurdo que cercaram aquele anúncio, destacamos abaixo, para efeito de comparação, algumas frases, pinçadas de uma apresentação que a empresa preparou para investidores institucionais e cuja forma, por determinação expressa dos órgãos reguladores e fiscalizadores, deve ser muito mais técnica e muito menos política. Logo no primeiro slide, um alerta importantíssimo, mas que passou a léguas de distância das bocas dos trombeteiros petistas: “os resultados futuros das operações da companhia podem diferir das atuais expectativas”. Já se a notícia fosse deixada a cargo do diretor de exploração e produção, Guilherme Estrela, ela seria formatada de forma mais cautelosa ainda. Eis as palavras do mesmo: “o que encontramos dá robustez às nossas hipóteses, mas ainda é (só) uma hipótese”. Qualquer pessoa com um mínimo de isenção verá que existe uma diferença oceânica entre a voz recatada dos técnicos e a prosopopéia dos políticos – Lula à frente.

O circo montado pela Secretaria de Comunicação Social no dia 8 serviu a muitos propósitos e, sem dúvida, pode ser considerado um retumbante sucesso. De cara, serviu de pretexto para que as autoridades petistas sinalizassem todo o seu apreço pela manutenção do “monopólio enrustido” da Petrobra s e retirassem, da próxima rodada de leilões da ANP, prevista para acontecer nos dias 27 e 28 de novembro, nada menos do que 41 blocos, todos eles limítrofes à reserva da bacia santista. Em nome de um nacionalismo espúrio e extemporâneo, mexeram nas regras do jogo sem qualquer pudor, ainda que já houvesse 65 empresas inscritas no leilão, algumas com investimentos vultosos em pesquisa já realizados. Mas, o que representa o respeito às normas e aos contratos, diante do famigerado “interesse soberano do país”, materializado nesse verdadeiro ícone do nacionalismo tupiniquim, não é mesmo?

Outro claro propósito dos marketeiros petistas foi tirar os holofotes da mídia de cima do resultado ridículo que a Petrobras apresentaria no dia seguinte. O lucro líquido(3) do paquiderme monopolista levou um tombo de 22%, em relação ao mesmo período do ano anterior, ainda que as vendas totais tenham aumentado 9% e a receita líquida 3%. Como de praxe, colocaram a culpa do mau desempenho num bode expiatório – o câmbio – mas o verdadeiro vilão não é outro senão as pesadas transferências de recursos para cobrir rombos da PETROS, que eles chamam pelo pomposo nome de “gastos vinculados à repactuação de cláusulas do regulamento do plano de pensão”.

Os tais “compromissos relacionados com o acordo de obrigações recíprocas”, como também são chamados, fizeram com que a rubrica “Fundos de pensão e saúde” fosse responsável, sozinha, por um resultado negativo, no trimestre, de R$ 1.147 bilhão, contra R$ 484 milhões no mesmo período de 2006. Agora, estimado leitor, preste bastante atenção a estes números: de janeiro a setembro de 2007, os gastos totais da empresa com o item “Pessoal” – salários, vantagens e encargos – foram de (inacreditáveis) R$ 10,020 bilhões. Para se ter uma idéia do descalabro que isso representa, esse valor é superior a tudo que o governo irá desembolsar com o Bolsa-Família em 2007 (orçado em R$ 8,7 bilhões). Como no mesmo período de 2006 essa rubrica alcançou R$ 7,610, conclui-se que houve um acréscimo de 31,67%. Seria um pouco mais palatável se esse aumento tivesse sido acompanhado, em proporção, pelo aumento dos lucros ou pelos demais gastos operacionais, mas não foi o que ocorreu. Senão, vejamos este interessante, e bastante ilustrativo, quadro que, nas demonstrações financeiras da empresa, leva o nome de “distribuição do valor adicionado consolidado”:

 

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Como se pode facilmente notar, enquanto as participações da “viúva” – aquela que de nada reclama e tudo aceita mansamente – na distribuição do valor adicionado caíram de forma abrupta, os verdadeiros e reais proprietários – ou melhor diria eu, se dissesse “amantes” desta fabulosa virgem dos lábios de mel? – aumentaram seus ganhos em mais de 30%. Reparem também como o item que congrega “juros, variações cambiais e monetárias”, malgrado tivesse sofrido um aumento de 53% no período, representa menos da metade dos gastos com pessoal. E eles ainda têm coragem de chamar aquilo de empresa pública.

É: pensando bem, acho que devo juntar-me àqueles que lutam, não pela privatização da dita cuja, mas pela sua real e definitiva reestatização.

Notas:

(1) Fonte: ANP – http://www.anp.gov.br/doc/dados_estatisticos/Importacoes_e_Exportacoes_b.xls

(2) Fonte: Jornal O GLOBO – http://clipping.planejamento.gov.br/Noticias.asp?NOTCod=393425

(3) Fonte: Petrobras – http://www2.petrobras.com.br/ri/spic/bco_arq/RMFBRGAAP3T07Port.pdf

O Petróleo é nosso. E a ilusão também

Todos os indicadores, contábeis e financeiros, demonstram, cabal e insofismavelmente, que a Petrobras sempre esteve anos luz atrás da concorrência e o seu desempenho ao longo dos anos é pífio quando confrontado com o das petrolíferas privadas mundo afora.

Como já era previsto, um novo turbilhão propagandista da Petrobrás infestou a mídia. Misturando uma boa dose da velha xenofobia nacionalista com a indefectível idolatria estatista, esse marketing agressivo visa a criar uma atmosfera de ufanismo em volta da famigerada auto-suficiência na produção de petróleo, além de prestar, é claro, contribuição dissimulada à campanha de reeleição do Grande Líder Prestidigitador dessa nação de ingênuos chamada Brasil

Pândegas e solenidades diversas foram programadas. As mais importantes, obviamente, serão comandadas pelo Sumo Ilusionista Lula da Silva, com direito a púlpito, mãos sujas (literalmente) e todos aqueles rapapés característicos. O engraçado é que, nessas horas, ninguém se lembra que a única contribuição do indigitado cavalheiro para a façanha em tela tenha sido o resultado medíocre da atividade econômica durante o seu governo, fato que determinou o cruzamento das curvas de produção e demanda (de petróleo) mais cedo que o previsto.

Páginas inteiras de jornais e revistas têm sido cobertas com as cores da bandeira brasileira, realçando a risonha figura do simpático operário “BR”. “Pop-Up’s” pululam nas telas de nossos computadores a cada nova página aberta na Internet. Na televisão e no rádio não há um só intervalo comercial que não seja tomado pelas imagens fulgurantes das plataformas marítimas ou pela voz marcante e grave do locutor, anunciando o “feito extraordinário” desse “colosso” estatal, “orgulho da nossa gente”.

Malgrado todo esse estardalhaço – quase uma lavagem cerebral -, cada vez que vejo, leio ou escuto essas manifestações de triunfo, fico a perguntar, do alto da minha ranzinzice: “que vantagem Maria leva” nisso tudo? Que benefícios para a patuléia se escondem por trás de tão “extraordinário feito”? Qual o preço pago pela sociedade para que ele fosse possível? O que há, afinal, para comemorar?

Na busca de respostas a essas perguntas, a primeira coisa que me vem à mente é tentar estabelecer uma correlação entre auto-suficiência em petróleo e prosperidade. Faço então uma lista dos grandes produtores e exportadores: Arábia Saudita (77), Irã (99), Iraque (n/r), Rússia (62), Venezuela (75), México (53), Kuait (44). Logo de cara, sobrevém a primeira decepção. Ora, se produzir “ouro negro” é essa coisa tão maravilhosa, por que todos os países acima listados detêm índices de desenvolvimento – tanto econômicos quanto humanos (ranking de 2003 entre parênteses) – tão medíocres? Até mesmo Kuait, México e Rússia, os três mais destacados dessa turminha, parecem estar muito longe dos primeiros da classe. Começo a achar que “tem carne debaixo desse angu”.

Resolvo mudar o enfoque da pesquisa. Quem são os maiores PIB’s do planeta? Eua, Japão, Alemanha e China. Outra desilusão. Todos eles são grandes importadores e estão muito longe de tornarem-se auto-suficientes. Como isso é possível? Como podem prosperar enquanto reféns do petróleo estrangeiro? Qual será a mágica? Será que a megera M. Thatcher tinha razão? Será que o velho discurso do “produto estratégico” não passa de puro diversionismo, voltado exclusivamente para a obtenção e manutenção de privilégios?

Faço então a lista dos países com os maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH): Noruega, Islândia, Austrália, Luxemburgo, Canadá, Suécia, Suíça, Irlanda, Bélgica, EUA, Japão, Países Baixos, Finlândia, Dinamarca, Reino Unido. Alvíssaras! O primeiro do ranking é auto-suficiente e exportador. Mas felicidade de pobre dura pouco. Exceto a própria Noruega e o Reino Unido, parece que todos os demais são bastante dependentes do petróleo importado, o que me faz deduzir que a abundância do “ouro negro” não deve ser o fator determinante para o elevado IDH norueguês.

Acho que não será por aí que eu vou compreender o porquê de tanta rejubilação. Mudo o foco. Penso nos preços que pagamos pelo combustível que consumimos. Mais uma decepção. Historicamente, o preço da gasolina brasileira é praticamente o dobro da norte americana, ainda que eles importem mais da metade do petróleo que consomem. Bem, provavelmente agora, que nos tornamos auto-suficientes, essa relação vai mudar, especulo. Ledo engano! Leio entrevista do senhor Gabrielli, presidente do “Colosso Verde e Amarelo”, onde o mesmo diz, com todas as letras, que os preços internos devem acompanhar os do mercado internacional, já que a empresa precisa se manter competitiva, etc., etc. Acho até que faz sentido, mais ainda se houvesse realmente competição aqui no nosso mercado. Mas esse é um outro papo. Sigo adiante.

Sou teimoso. Deve haver algo para comemorar. Não é possível que se faça tanto barulho por nada. Ah! Todos falam da dádiva que é termos uma empresa pública (supostamente de todos os brasileiros) no comando de uma atividade tão complexa e estratégica quanto a produção e refino de petróleo. Afinal, dizem, não fosse a eficiência e abnegação dos dirigentes e empregados da Petrobrás, talvez jamais tivéssemos alcançado este estágio. Tivéssemos deixado as coisas nas mãos dos gananciosos empresários da iniciativa privada, das multinacionais, e nunca chegaríamos à tão almejada auto-suficiência. Pode ser, por que não?

Vã esperança. Todos os indicadores, contábeis e financeiros, demonstram, cabal e insofismavelmente, que a “gloriosa” sempre esteve anos luz atrás da concorrência. Visto sob quaisquer ângulos, o seu desempenho ao longo dos anos é pífio quando confrontado com o das petrolíferas privadas mundo afora (malgrado alguns números “enormes”, se comparados com o restante da tísica economia brasileira, possam ser extraídos de seus balanços).

Mesmo operando com uma margem bruta muito acima do razoável para os padrões internacionais – resultado de um monopólio perverso para o consumidor – a produtividade dos seus fatores de produção, especialmente da mão de obra, é desalentadora. Durante a maior parte de sua vida, o retorno do principal acionista (o Tesouro Nacional) sobre o patrimônio foi insignificante, ficando, muitas vezes, abaixo até do rendimento da poupança. (É verdade que, de meados da década passada para cá, quando ocorreu uma ligeira abertura do mercado, alguns índices de desempenho melhoraram significativamente).

Mas será que ninguém lucrou com tudo isso? Afinal, foram mais de cinqüenta anos de investimentos maciços – muitas vezes desviados da saúde, da educação e da infra-estrutura, diga-se de passagem e a bem da verdade. Sim. Sem dúvida, alguns ganharam. E muito. Em primeiro lugar, lucraram os políticos, de hoje e de ontem, que fizeram da estatal um verdadeiro balcão de negócios espúrios e clientelismos vários – quase sempre contrários ao interesse dos acionistas e dos consumidores.

Ganharam também os empregados da dita cuja que, além dos salários (será que ainda são 15 por ano?) acima do mercado, mais os benefícios extras (as famosas conquistas), ainda contam com polpudas participações nos lucros e outras benesses estatutárias. Sem falar das aposentadorias, garantidas por um fundo de pensões cujas contribuições foram, durante muito tempo, bancadas quase que exclusivamente pela empresa, em proporções que superavam de 4 a 5 vezes os dividendos recebidos pelo Tesouro. Não é outra a razão por que Roberto Campos, falando da “Petrossauro” cunhou a famosa frase: “O Brasil descobriu uma nova forma de capitalismo. É o ‘capitalismo de transferência’. Uma forma de capitalismo selvagem em que o Tesouro e seus contribuintes são explorados por uma nova classe – a burguesia do Estado”.

É, pensando bem, não há muito o que comemorar. Ao contrário, o mais provável, de acordo com a lógica e a observação dos fatos, é que já teríamos alcançado essa tal auto-suficiência há muito tempo – e a um custo bem menor – caso tivéssemos deixado a tarefa nas mãos mais eficientes da iniciativa privada, nacional e estrangeira, sob um regime de livre concorrência. No entanto, no país do carnaval festejamos até desgraças e cantamos loas aos nossos algozes. Que venham então os rega-bofes; os iludidos pagarão a conta de bom grado.

Notas:

Sobre o assunto leia também Petrobras x Bancos

Convocação lembra a de Collor, mas é chavismo em estado puro

por  Reinaldo Azevedo

Ao convocar sua militância para tomar as ruas o PT mimetiza no Brasil o que os seus congêneres de esquerda têm feito continente afora.

O PT, ficou claro na entrevista coletiva do presidente do partido, José Genoino, e do tesoureiro da legenda, Delúbio Soares, vai pedir à população que se vista de vermelho. Vai, em suma, pra galera. Delúbio especificou o público que ele espera estar presente no que chamaram de “ato em defesa do PT”: os filiados do partido, as ONGs, o MST e a “sociedade petista”, aqueles que, segundo ele, não sendo ligados à legenda, têm simpatia por ela. O ato, segundo os dirigentes, será em defesa do partido, mas também contra a corrupção no país. Não poderia ser mais orwelliano do que isso. É pura “novilíngua”: a coisa é o rigoroso contrário da palavra. Explicável: a distopia criada por George Orwell é parente moral da utopia petista. Estão todos em casa. Mas sigamos: eis aí. Chegou a hora de o PT brincar com o perigo. E ele, claro, brinca.

O último que conclamou a população a sair às ruas em defesa do governo foi Fernando Collor, naquele pedido patético para que os brasileiros se vestissem de verde e amarelo. No outro dia, o país estava coalhado de gente envergando luto. Não será ainda o caso desta vez. Até porque, à sua maneira, Delúbio e Genoino sabem o que fazem: parte dos que usaram preto contra Collor vestirá vermelho, desta vez, a favor de Lula. Muito bem: a similaridade com o ex-presidente se esgota aqui. A partir deste ponto, sai Collor, entra Hugo Chávez como inspiração do petismo. Àqueles sempre muito seduzidos e encantados com a conversão do PT à democracia, está sendo dada a primeira lição: esses caras não temem crise, não, senhores! Eles investem nela porque acreditam que, ao fim, saem sempre ganhando. Assim fizeram ao longo de 25 anos e foram bem-sucedidos.

Acuados por denúncias, descendo a ladeira da ética, dos bons costumes políticos, da decência, da funcionalidade, da governabilidade, restou o quê? Partir para a clivagem que sempre esteve subjacente ao discurso do próprio Lula: de um lado, o povo pobre, sedento de justiça; de outro, as elites. O ato proposto é um sinal de que eles se julgam prontos a ir para o confronto. Golpeiam as instituições; tratam o Parlamento como um lupanar; aparelham o Estado; privatizam o destino do país, colando-o ao do partido, e, ora vejam, na hora em que as coisas apertam, fazem o quê? Denunciam a desestabilização. Como se não fossem eles mesmos a desestabilizar o país, o governo e as próprias instituições.

Tudo isso estava escrito e inscrito na estrela. Alguns, como nós (e não fomos os únicos, felizmente), viram e acusaram o risco precocemente; outros perceberam, mas julgaram, sei lá, que o país deveria cumprir uma espécie de carma (eu, hein…); uns poucos, com certa soberba, acreditaram que a razão sempre triunfa no fim (o que é uma inverdade provada cotidianamente pela história); muitos, mais cínicos, apostaram que era possível encabrestar o petismo e ainda colher alguns lucros com isso.

Pois bem. Se é assim, então é chegada a hora de a sociedade civil não se deixar intimidar pelo apparatchik. Antes que prossiga, retomo, como parêntese, o que escrevi na edição anterior. Usando a expressão do colunista Antonio Fernandes do site e-agora (Notas:

Publicado por Primeira Leitura em 08/06/2005.

Por que marcha o MST?

Por que marcha o MST? Por tudo, menos pela Reforma Agrária.

Não é pela reforma agrária que marchou sobre Brasília o MST. Ela, a reforma agrária, está em curso, a despeito da sua inutilidade e do desperdício de recursos escassos em que incorre. Também não é porque os seus militantes não estejam no governo. Seus membros são “o” governo, vez que o PT é a sua expressão política e tem a Presidência da República e o órgão que cuida do assunto, o INCRA, foi integralmente aparelhado pelo movimento, pondo-se a seu serviço.

Então, por quê? Por muitos motivos e aqui posso listar alguns; 1- pelo ativismo político inerente à sua dinâmica; 2- pelo palanque para a suas lideranças, que assim podem aparecer na mídia e também para o seu público interno; 3- porque essa é a sua profissão, o ativismo político. Muitos dos que marcham nunca viram uma roça de perto e até são remunerados como “marchadores”, a se crer no relato da imprensa; 4- porque acreditam na revolução socialista nos termos feitos na China (maoismo); 5- porque o espetáculo fanfarrão faz parte do processo político do movimento, que se alimenta de bravatas contra ordem estabelecida; 6- porque a organização da marcha tem muito de empreitada militar e o movimento nunca descartou o recurso à força para alcançar seus objetivos, daí seus contatos e apoios com guerrilheiros da Colômbia (FARC) e a manifesta simpatia por Cuba e Fidel Castro.

Então o que se vê é uma desordem pública “organizada”, que sob o império da lei não deveria acontecer. Do mesmo modo que organizam a marcha insensata, organizam invasões às propriedades privadas, rasgando a Constituição. Não podemos esquecer que se organizar em grupo para violar a lei é crime. Mais uma vez a omissão das autoridades é gritante, chegando ao inverso de governos bancarem com apoio logísticos e recursos de toda ordem a marcha da insensatez. Vemos o maior, o Poder Público, reclinar-se diante do menor, um grupo que outra coisa não pleiteia que não a destruição da ordem estabelecida.

O MST é como uma corda esticada sobre um abismo, qual o funâmbulo de Nietzsche. A qualquer momento poderá acontecer o acidente fatal, se Satã quiser repetir a peça que pregou ao filósofo amalucado: saltar sobre os marchadores, tirando-lhe o equilíbrio e precipitando a todos, e não apenas os marchadores, mas todo o País, no abismo. O Cão sempre atenta, diz o antigo brocardo.

É preocupante ver os aderentes de toda sorte, como aqueles ligados à ala esquerda da Igreja, políticos dos partidos esquerdistas de um modo geral, os bem pensantes esquerdistas de salão, que acham que assim podem acalmar a sua má consciência, tornando-se agentes da revolução, marchando alguns metros como se machassem em busca de um destino glorioso. Todos na corda bamba sobre o precipício, feitos palhaços de circo do interior, só que não há aqui salvaguardas nem rede protetora: um desequilíbrio que seja e será o fim da linha. É tudo que a comunalha deseja; é tudo que as pessoas de bem receiam e rezam para não acontecer.

Para os sem terra, tudo. Para os militares, nada

Socialismo revolucionário, é o que a esquerda católica quer para o Brasil. Por isso ao MST tudo, aos militares nada.

Os fatos falam por si mesmos. De um lado bilhões gastos a fundo perdido numa Reforma Agrária cujo fracasso já esta amplamente documentado. Um de seus agentes, o MST é tratado com honras e muito dinheiro vindo de fora, dos cofres públicos e amplo apoio logístico dispensado por governos para sua mais recente marcha-demonstração de força e prestigio, onde não falta apoio da esquerda católica. Fazem escancaradamente doutrinação marxista durante a marcha e exibem uma arrogância como se fossem donos do país e estivessem acima da Lei. De outro lado, pobres senhoras dos militares são tratadas com indiferença e desdém.

Como a CPT e a esquerda católica tratam uma e outra entidade?

O comentário que segue nos dois próximos subtítulos é da jornalista Márcia Peltier no Jornal do Brasil:

Show 1

“A marcha do MST, que deverá chegar em Brasília dia 17, com seus 11 mil integrantes, tem uma logística invejável. Ambulância, carros de apoio, computadores, e um sistema de comunicação integrada com a imprensa, além de cestas básicas garantidas. É uma verdadeira caravana rolidei”.

Show 2

“Já o espetáculo das mulheres dos militares que estão acampadas na Esplanada do Ministério, está longe de ser um show. Sem apoio nenhum, uma das manifestantes passou mal, ontem, e não tinha sequer dinheiro para comprar remédio. Foi ajudada por um passante”.

Dois pesos e duas medidas

Os militares, homens da lei e do silêncio, sempre foram tratados como heróis da pátria. Não é de se esperar deles arrogância e muito menos descumprimento da lei. Acostumados ‘a hierarquia, sentem-se até constrangidos ao reivindicar algo para si mesmos. Suas mulheres estão em manifestação para pedir uma simples reposição salarial, enquanto seus maridos continuam trabalhando seja no Haiti, seja na Amazônia, seja no apoio ‘as Policias Estaduais, seja nos quartéis. Não nos consta que alguma Pastoral da CNBB esteja dando apoio a essas mulheres.

Do outro lado a baderna invasora, arrogante e acima das leis, recebe o apoio do Arcebispo de Goiânia, D.Washington Cruz, que procurou, no início do ano o Governador Marconi Perillo e conseguiu dele um amplo apoio logístico, sem o qual essa manifestação não conseguiria se realizar. Soma-se a esse apoio o da Prefeitura de Goiânia e diversas prefeituras por onde a marcha vai passando. Como, logicamente, não podem contar com apoio dos fazendeiros, vão invadindo onde precisam acampar. Já estão na oitava invasão.

Os custos dessa marcha não ficam nos que a mídia tem chamado a atenção. Segundo Jean Maria Tomazela, do jornal O Estado de São Paulo, “ o MST levou 11 meses para treinar 3 mil militantes em 23 Estados para os postos de comando, numa estrutura cuja hierarquia e disciplina se assemelham ‘as de um exército”. Quem custeou tudo isso?

A CPT – Comissão Pastoral da Terra está presente

Além da presença da CPT, outros grupos religiosos acompanham a marcha. O mais numeroso é o da Presença Solidária da CRB – Conferência dos Religiosos do Brasil, com 100 freiras acompanhando a marcha. Uma delas declarou que “nossa missão é estar onde o povo sofre”.

E as mulheres dos militares? Não sofrem? Onde estão as irmãs para confortá-las?

Doutrinação para uma nova sociedade

Durante as tardes, os “Marchantes” como são chamados, que receberam 10 mil mochilas contendo cadernos, caneta, cartilha da Reforma Agrária, livros de Karl Marx e Florestan Fernandes recebem doutrinação. Não faltam bandeiras com a imagem de Che Guevara, que encabeça a marcha ao lado da bandeira do Brasil, ou cartazes da “Brigada Olga Benário” entre outros ícones do comunismo internacional. Os temas das reuniões quase sempre envolvem questões ideológicas. Como esta de Pedro Simas, da Via Campesina:” Este é um momento de outras possibilidades, por isso colocamos nosso exército de trabalhadores nas ruas, para mudar a realidade que aí está e construir uma nova sociedade.

Um exército?

Cremos ler na consciência de nossos leitores: O MST não estaria preparando um exército  revolucionário? Eis o que relata Antonio Sepúlveda, jornalista do Jornal do Brasil: na marcha do MST “ dez mil radinhos garantem a pregação socialista e o toar de marcha político-militares e revolucionárias, transmitidas por um trio elétrico. Uma delas, a Marcha Brasil, tem um refrão politicamente explícito e literariamente medíocre: “Marcha Brasil, ergue a tua voz / Um novo país só depende de nós / Um país socialista queremos construir / Junto com o povo queremos resistir / É hora, camaradas / Não podemos desistir”. Não tiveram nem o cuidado de substituir o “camarada” soviético pelo “companheiro” petista!Também cantam hino de marcha que tem o refrão:  “um dia eu avistei uma bandeira em minha frente / o coração bateu muito forte, senti algo diferente / sua cor era vibrante, cor de sangue da gente”.

Pois é isso que a esquerda católica quer para o Brasil. Por isso ao MST tudo, aos militares nada.

Notas:

Publicado pelo boletim Sem Medo da Verdade.

O discurso de Lula

No seu último discurso na ONU, Lula, o Metamorfose Ambulante, repetiu as bobagens de sempre sobre globalização e pobreza: disse que o mundo de hoje é muito mais desigual do que o de dois séculos atrás (como se tal informação fosse relevante) e também afirmou que, para combater o terrorismo, é preciso lutar contra a fome no mundo.  O discurso de Lula nada tem a ver com a realidade dos fatos; o presidente apenas repetiu as idéias retrógradas do seu partido, que mantém o mesmo caráter autoritário e intervencionista, por mais que extremistas de esquerda pensem o contrário. Na verdade, Lula não mudou significativamente as suas idéias; adaptou-se às circunstâncias do momento, e alterou o seu discurso em um ou outro ponto irrelevante, que apenas engana quem não conhece a estratégia do seu partido, que consiste em dar  uma aparência de democrático a um governo que a cada dia aumenta mais o seu controle sobre a vida do cidadão.

Lula falou em desigualdade na comparação do mundo atual com aquele de dois séculos atrás, e não acrescentou outras informações que refutariam a sua afirmação de que o mundo atual é pior do que o de outrora. A tese de Lula, baseada na consideração de apenas um dado, a desigualdade, é completamente equivocada para a adequada compreensão das diferenças entre as duas épocas em questão. Pois a desigualdade em si não é problema; em um país livre, é natural que haja diferenças, que são resultado da dinâmica do mercado: uma empresa bem sucedida é aquela que satisfaz o consumidor, este sim, o soberano no capitalismo, enquanto no socialismo o soberano é o planejador. Tentar acabar com as desigualdades não é viável nem desejável, pois isso significaria passar por cima dos direitos individuais, já que o Estado precisaria usar a força para tirar de alguns para dar a outros. Além de tudo, a ação do Estado não produziria os efeitos desejados; pelo contrário, criaria uma classe de burocratas parasitários dedicados à distribuição de riqueza. Como afirmou Trotski, o próprio encarregado de distribuir a riqueza não esquecerá de si mesmo… Tal experiência já foi feita nos países socialistas, e os resultados foram catastróficos, mas hoje em dia os debates no Brasil são restritos a um horizonte histórico extremamente limitado. Tudo aquilo que aconteceu em outros lugares e outras épocas parece não ser importante na análise dos nossos problemas atuais, como se nada tivéssemos a aprender da experiência histórica do ser humano. A extrema importância que se dá ao tema da desigualdade é resultado de compreensão inadequada sobre o processo de geração de riquezas. Um país pode ser desigual e também ter ótimos índices de qualidade de vida para o conjunto da sua população. A desigualdade não é incompatível com bons indicadores sociais; pelo contrário, nos países que impuseram o igualitarismo é que não foi possível a geração de riqueza necessária para que se obtivesse um bom padrão de vida. Além disso, falar apenas em desigualdade, sem considerar as outras diferenças entre o mundo de hoje e o do passado, como o fez Lula, é desonestidade intelectual: pois o mundo atual, embora ainda tenha muitos problemas, é consideravelmente mais rico na comparação com qualquer outra época. E a expectativa de vida aumentou, com os progressos tecnológicos. Há ainda o fato de que no mundo de hoje, graças aos avanços tecnológicos, um trabalhador comum tem acesso a bens e serviços que os governantes mais poderosos de alguns séculos atrás sequer imaginavam. É bom lembrar que só não evoluíram os países que praticaram as medidas que o próprio Lula defendeu a vida inteira, como o intervencionismo estatal na economia.

Em relação ao terrorismo, Lula repetiu o seu discurso sobre a fome, que não produziu resultado algum no Brasil. O fracasso do Fome Zero não impediu que Lula propusesse a sua implantação em escala mundial, como se o mundo desse importância aos arrotos de um presidente que governa um país pouco significante sob o aspecto econômico, e, o que é pior, sob o aspecto cultural. As propostas de Lula só poderiam ser impostas por um governo mundial, que violasse a soberania dos países. Lula mostra uma ambição ilimitada de poder, além de ignorância sobre os assuntos que trata: terrorismo nada tem a ver com fome. Pelo contrário, os terroristas a cada dia são mais poderosos porque têm acesso a recursos financeiros e tecnológicos de que não dispunham há anos atrás. E se hoje o terrorismo é um problema cada vez mais preocupante, isso certamente não tem relação com fome: não são os famintos os responsáveis pelo terrorismo; são, sim, os governantes que têm fome de poder.