conservadorismo


Estupidez erudita

O seu grande mérito consiste em notar que a política contemporânea de massas adquiriu essa faceta de substituta das religiões tradicionais. O que Gray não percebeu é que a imitação não é a obra genuína: o arremedo grosseiro não pode tomar o lugar da religião revelada. Na verdade, o recuo desta é que permitirá ao poder mundano assumir sua forma caricatural e mortífera, ao fazer do Estado o deus redentor das massas, desde o início do século XX.

Classificado por muitos como um dos maiores cientistas políticos vivos e a cabeça pensante que norteia ao menos os mandatários britânicos das últimas décadas, John Gray é professor de Pensamento Europeu na London School of Economics e colunista do jornal britânico The Guardian. O autor já tem vasta obra publicada, parte dela já traduzida para o português, com destaque para o aclamado  Cachorros de Palha. Gray é um pessimista ateu, que acredita que a humanidade não ocupa lugar de destaque no universo. Esta crença deriva da sua hostilidade ao cristianismo e vai fundamentar toda a sua análise política.

Heitor De Paola e o neototalitarismo na América Latina

Atualmente apresenta-se a esquerda como uma espécie de “sociedade de santos” que busca apenas o bem-comum e a prosperidade humana. Toda a barbaridade e as atrocidades cometidas em nome do socialismo são simplesmente silenciadas. É por causa dessa consciente e lamentável omissão que o livro de Heitor De Paola é uma leitura obrigatória.

Em junho de 2008 o analista político Heitor De Paola publicou um livro essencial para a compreensão da atual situação política do mundo contemporâneo e especialmente da América Latina. Trata-se de O eixo do mal latino-americano e a nova ordem mundial. Os capítulos desse livro foram publicados inicialmente no jornal eletrônico Mídia Sem Máscara (MSM).

A direita que a esquerda quer

Mais que definir as regras do jogo, a esquerda cria até mesmo a identidade do adversário, colocando na “direita” quem assim lhe interesse catalogar no momento, passando por cima dos protestos subjetivos do catalogado e ignorando com frieza de femme fatale os afagos e juras de amor com que ele tenta cavar um lugarzinho no grêmio das pessoas decentes, isto é, esquerdistas.

Entre outros resultados interessantes que deixarei para comentar outro dia, o estudo dos cientistas políticos Timothy Power e César Zucco, publicado na Latin American Research Review sob o título “Estimating Ideology of Brazilian Legislative Parties, 1990-2005” (v. http://www.iuperj.br/site/czucco/czucco_files/paperlarr.pdf), mostra que, enquanto os parlamentares tidos por seus adversários como “de direita” evitam colocar-se sob esse rótulo, os de esquerda, centro-esquerda e centro se autodefinem até como mais esquerdistas do que a posição nominal dos seus partidos deixaria suspeitar.

Fome, capitalismo e a necessidade de precisão na análise

A fome ocorre na Coréia do Norte (um dos últimos dos antigos “paraísos” comunistas) onde o pecado é representado pelo desvio de recursos de um crápula egomaníaco que perpetua uma dinastia de opressão sobre seu próprio povo, mantendo um exército com investimentos desproporcionais ao que o país gera de recursos.

A fome das pessoas é um problema real, que incomoda os famintos e leva alguns alimentados a procurar aliviá-la. No Brasil criamos um programa governamental pífio e mal-sucedido para, supostamente, erradicá-la da sociedade. No afã de fazer alguma coisa, ou, por vezes, com motivos menos nobres e demagógicos, rotula-se a fome como sendo uma catástrofe gerada por este “mundo capitalista” – como escreveu um amigo meu. Essa análise é falha, pois o mundo é tudo, MENOS capitalista. A fome ocorre genericamente neste mundo onde impera o pecado, exatamente por causa do pecado.

A liberdade como serva da tirania

O livre mercado tornou-se o pretexto com que as forças globalistas interessadas na construção de um governo mundial controlador e despótico vão minando as soberanias nacionais e induzindo povos inteiros a abdicar de todas as demais liberdades em troca do simples poder de comprar e vender. O argumento de que a liberdade econômica traz consigo todas as demais liberdades é aí usado como pretexto para produzir o resultado oposto: suprimir todas as liberdades exceto uma.

Há pelo menos quarenta anos o debate político neste país gira em torno da escolha entre livre mercado e intervencionismo estatal, identificados respectivamente com a “direita” e a “esquerda” e incumbidos de definir automaticamente, a partir dessa base econômica, as demais alternativas humanas em todos os campos da cultura, da legislação, da moralidade, etc. Quando alguém se define como “liberal”, é portanto automaticamente classificado entre os direitistas, conservadores e reacionários, tornando-se, em contrapartida, socialista, progressista e revolucionário tão logo mude para o campo do intervencionismo estatal. Os ícones das facções respectivas são Roberto Campos e Celso Furtado.

Ainda sobre princípios

“Those are my principles, and if you don’t like them… well, I have others.”

Groucho Marx

Num debate recente entre amigos sobre a viabilidade de aplicação das receitas econômicas liberais no combate à crise que ora se instala no mundo, um deles fez uma análise curta, porém incisiva e inquietante, especialmente numa roda supostamente liberal.  Disse o nosso amigo:

“O liberalismo é uma utopia materialista que faz uma escolha inversa à do socialismo (…), mas ambas são só utopias, reduções da riqueza da realidade insuficientes para propor algo funcional.”

Esta é, sem dúvida, uma boa questão. Há muita confusão a respeito, pois se confunde o que seja uma doutrina com modo de organização econômico e social. O liberalismo é, resumidamente, uma doutrina, ou seja, um conjunto coerente de idéias e princípios, baseado na defesa intransigente da liberdade individual, nos campos político, econômico, religioso e intelectual. Por conseguinte, contra ingerências e atitudes coercitivas de terceiros, inclusive e principalmente do poder estatal sobre as escolhas individuais.

Como qualquer outro constructo da inteligência humana, o liberalismo é, portanto, uma representação abstrata ou, segundo Max Weber, um tipo ideal, uma sinopse conceitual.  Ao contrário do socialismo, entretanto, ele não se pretende um modelo de organização social, pois se insere no modelo capitalista – daí a enorme necessidade de defendermos o capitalismo, ainda que isso muitas vezes pareça uma atitude, digamos, politicamente contraproducente.

Sempre que se quiser transformar, equivocadamente, o liberalismo num modelo de organização social, ele será, sim, uma utopia. A luta de um liberal é, conseqüentemente, por um modelo capitalista que seja o mais livre possível, dentre as inúmeras gradações que o capitalismo comporta.

Dito isso, acredito que um liberal deve ater-se muito mais a idéias e princípios, e muito menos a objetivos políticos imediatos, por mais que isso possa desgostar algumas pessoas mais – digamos – pragmáticas. O poder não deve ser o nosso objetivo, até porque um governo puramente liberal é um oximoro.

A exemplo de determinadas correntes conservadoras, alguns dos autoproclamados liberais, especialmente os mais avessos ao epíteto “radical”, sustentam que nós não deveríamos amedrontar os leigos com tanta “ortodoxia”; acham que poderíamos, por exemplo, evitar certos programas e princípios do liberalismo na sua totalidade, notadamente alguns cuja consecução se choca com aquele “humanismo” mais rasteiro, tão ao gosto dos nossos adversários da esquerda.

Esses “liberais” costumam, nos momentos de crise, abraçar com entusiasmo programas oportunistas, que se concentram apenas nos efeitos visíveis e imediatos, muitas vezes fazendo concessões absurdas ao estatismo, como demonstra o recente apoio de alguns a medidas intervencionistas, sempre sob o pretexto de suavizar os efeitos da crise atual. O presidente Bush, por exemplo, em entrevista há poucos dias, chegou a pedir desculpas por “ter sido obrigado” a abandonar seus princípios para, segundo ele, “tentar salvar a própria economia de livre mercado”. Como se praticar um ato intrinsecamente mau pudesse ser um atalho para se alcançar o bem. Quantas atrocidades já não se praticaram no mundo em nome de ideais superiores?

Como bem frisou Milton Friedman, “se observarmos cada problema à medida que surge, quase sempre nos depararemos com fortes pressões políticas para ‘fazer algo’ em relação a ele. Isso acontece porque os efeitos diretos e imediatos das soluções propostas são claros e óbvios, enquanto os efeitos indiretos são remotos e complicados”.  Acrescente-se a isso o fato de que quase sempre haverá grupos de interesse organizados com argumentos contundentes a favor de uma medida em particular (vide o caso do salvamento das três montadoras de Detroit), enquanto seus opositores são dispersos e desorganizados, e os efeitos de longo prazo difíceis de vincular.

Ademais, é um contra-senso pensar que a receita econômica liberal serviria apenas para criar e multiplicar riquezas em períodos de paz e prosperidade, sendo inviável em tempos de crise, quando a intervenção do Estado seria bem-vinda. Definitivamente, não é uma atitude liberal preocupar-se somente com as conseqüências imediatas de quaisquer medidas, considerando apenas o senso comum e a “necessidade” política inelutável de encontrar soluções mágicas e instantâneas, sempre impostas através da lei – leia-se: da coerção – para os problemas econômicos e sociais.

Olha o que fizeram conosco

Com um eleitorado majoritariamente de direita e com perfil ainda mais acentuadamente conservador, como entender o tom monocórdio do atual discurso político? Aí é preciso ler Antônio Gramsci.

Periodicamente, o Datafolha realiza investigação sobre o pensamento político do brasileiro. A última pesquisa foi realizada há exatos dois anos. Para expressar sua posição no arco ideológico, o eleitor é posto diante de um gráfico com sete possibilidades, sendo que as posições 1,2 e 3 correspondem à esquerda, as posições 5, 6 e 7 à direita e a posição 4 ao centro. Resultado? Quarenta e sete por cento se colocam na direita, 23% no centro e 30% na esquerda. Surpreso, leitor? Pois saiba que a juventude não deixa por muito menos. O Datafolha acaba de divulgar pesquisa realizada nesse específico segmento, com o seguinte resultado: 37% à direita, 28% à esquerda e 23% no centro. Os dados ainda estão no site do instituto.

Mas se é assim, por que a imensa maioria dos políticos gosta de se exibir com discurso de esquerda? “Ah! – responderão eles – é que a cabeça da sociedade, o senso comum das pessoas é progressista. Se você fizer perguntas objetivas, sobre temas concretos, verá que a maioria tem conceitos de esquerda”. Pois saiba, leitor, que isso é totalmente falso, como mostra a matéria daquele jornal paulista publicada em 13 de agosto de 2006. Textualmente. “Apesar de menos da metade se definir como de direita, é esmagadora a maioria que adota posições geralmente associadas ao conservadorismo, como a condenação ao aborto, às drogas e a defesa de medidas mais duras de combate ao crime. A pesquisa mostra que são contra a descriminalização da maconha 79%. Do aborto, 63%. Outros 84% defendem a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos e 51% querem a instituição da pena de morte”.

Na pesquisa, recentíssima, feita entre jovens, sobre temas objetivos, fica ainda mais evidente a posição conservadora. No conjunto dos pesquisados, os valores mais apreciados estão radicados na família e na religião. E os objetivos majoritários estão postos no estudo, no trabalho e na aquisição de bens. A imensa maioria é contra a descriminalização das drogas. E acrescento eu: embora a pesquisa não indague sobre posições a respeito do direito de propriedade, invasões de terra, greve no setor público e por aí afora, tenho certeza de que as convicções dominantes estariam diametralmente opostas àquelas assumidas pela esquerda.

Ora, com um eleitorado majoritariamente de direita e com perfil ainda mais acentuadamente conservador, como entender o tom monocórdio do atual discurso político? Aí é preciso ler Antônio Gramsci e compreender o modo através do qual se alcança a hegemonia fazendo as cabeças dos fazedores de cabeça. Isso vai evidenciar que estamos sob a ditadura do “politicamente correto”, imposta pela mídia, pela maior parte do clero católico, pelo ambiente universitário e pelo sistema de ensino em geral. É admirável a resistência e o discernimento revelados pela sociedade brasileira em suas convicções doutrinárias e ideológicas quando submetida a tamanha dominação cultural! 

Dias atrás, numa reunião com amigos, conversávamos sobre estes assuntos e eu indaguei: “Se nós, que somos leigos, fôssemos criar uma escola, admitiríamos no corpo docente professores ateus, comunistas, favoráveis ao aborto, materialistas, anticlericais ou inimigos declarados da Igreja?”. A resposta de todos foi a mais óbvia possível. “Não!”. Como admitir, então, que tradicionais ordens religiosas, fundadas para ensinar segundo os valores do cristianismo, implantem universidades e redes de escolas de vários níveis e graus onde vale tudo, inclusive ridicularizar a própria instituição e as crenças que alega esposar? 

Veja leitor, o que fizeram conosco! Nós, conservadores, que no mundo inteiro respondemos pelos valores que conduzem ao progresso e ao Bem, nos deixamos submeter e conduzir pelos tais “progressistas” de araque, sabotadores do templo e seus fazedores-de-cabeça. Em número cada vez maior lhes concedemos posições de comando nas instâncias do Poder Judiciário, na mídia e na política nacional.

Professores de abstratices

Enquanto os liberais e conservadores discutiam em abstrato o sistema econômico e a estrutura do Estado, a esquerda construía, diante dos seus olhos cegos, a maior e mais poderosa organização política que já existiu no continente.

Um dos princípios fundamentais do marxismo é a união indissolúvel do conhecimento e da ação revolucionária. Quaisquer que sejam os erros da teoria, eles acabam sendo neutralizados, na prática, pela constante revisão da estratégia à luz da experiência adquirida pelo intelectual coletivo (o Partido) na sua luta pela conquista do poder absoluto e pela destruição final do adversário. A intensidade do esforço intelectual coletivo, organizado e voltado a objetivos mensuráveis, dá aos partidos de esquerda uma capacidade de ação concentrada, orgânica, que seus adversários no campo liberal e conservador nem de longe conseguem emular, e no mais das vezes nem mesmo conceber.

Na verdade, a simples necessidade de adestrar os intelectuais e organizá-los para uma ação cultural integrada é algo que jamais passou pelas cabeças dos nossos “direitistas”. No máximo, o que concebem é uma pura “disputa de idéias”, como se, uma vez demonstrada em teoria a superioridade intrínseca da livre empresa, a militância socialista se dissolvesse por si, cabisbaixa e arrependida, desistindo para sempre de suas ambições revolucionárias.

Nem de longe suspeitam que, na voragem da ação política, as idéias podem vir a representar um papel bem diverso – ou até inverso – daquilo que parecem anunciar pelo seu mero conteúdo. O intelectual coletivo , consciente dessa diferença bem como do fato de que os direitistas em geral a ignoram, diverte-se sadicamente, num jogo de gato e rato, fazendo as idéias mais ortodoxamente direitistas trabalharem pela glória e triunfo do esquerdismo.

A aposta unilateral dos liberais no enxugamento do Estado, inspirada em considerações econômicas e morais perfeitamente verazes e justas em si mesmas, mas amputadas de toda conexão com a estratégia política e cultural, só tem servido para transferir as prerrogativas do Estado para as ONGs esquerdistas, quando não para organismos internacionais perfeitamente afinados com o esquerdismo.

A idéia abstrata de lei e ordem , inteiramente correta, mas letal quando desligada do respectivo quadro cultural e estratégico, levou muitos liberais a colaborar servilmente na derrubada de Fernando Collor, a entronizar, portanto, a esquerda como detentora das virtudes morais por antonomásia e a dar-lhe por essa via os meios de elevar a corrupção a alturas que o ex-presidente não poderia nem mesmo imaginar. Não houve então um só intelectual esquerdista que, vendo o decano liberal Roberto Campos sair do hospital em cadeira de rodas para ir votar contra Collor, não se lembrasse, com enorme satisfação, da máxima de Lênin que recomenda fazer o adversário lutar contra si próprio . E não houve um só deles que não enxergasse, no sepultamento político do ex-presidente, o prenúncio da iminente ascensão petista.

Já assinalei também, nestes artigos, a facilidade com que, em prol da liberdade de mercado, liberais e conservadores admitem negociar – ou ceder de graça – os princípios morais e culturais que geraram essa liberdade e sem os quais ela não subsiste senão como etapa de transição para o socialismo. A direita deixa-se conduzir porque não tem nenhuma visão ou plano de conjunto, apenas o apego a pontos de detalhe que, de um modo ou de outro, sempre podem ser manejados para encaixar-se na estratégia abrangente da esquerda.

Para que tivesse essa visão ou plano, a direita precisaria ter formado uma genuína militância intelectual habilitada, no mínimo, a acompanhar as discussões internas da esquerda e a prever o curso das manobras estratégicas que ali se preparam. Mas como esperar que os intelectuais da direita enxerguem o futuro, se não querem nem mesmo olhar para o passado e o presente? Participei de muitos Fóruns da Liberdade , em Porto Alegre – a maior concentração de inteligências liberais e conservadoras que já se viu no Brasil – e jamais ouvi ali uma única palavra sobre o Foro de São Paulo , exceto saída da minha própria boca.

Enquanto os liberais e conservadores discutiam em abstrato o sistema econômico e a estrutura do Estado, a esquerda construía, diante dos seus olhos cegos, a maior e mais poderosa organização política – político-militar, na verdade – que já existiu no continente.

E, cada vez que falo em criar uma intelectualidade, eles me olham como se eu fosse um professor de abstratices, a quem se pode ouvir com reverência polida, mas jamais levar a sério no campo da “prática”, que eles consideram o seu terreno próprio. Como se fosse muito prático teimar no erro e perder sempre.

Notas:

Publicado pelo Diário do Comércio em 03/07/2008