Esquerdismo


A ameaça da aliança profana – Final

A florescente aliança entre esquerdistas ocidentais e as fileiras islamistas é um dos mais perturbadores desdobramentos políticos de hoje, o que impede os esforços do Ocidente de proteger-se.

Por que, então, a formação daquilo que David Horowitz chama de [unholy alliance] “aliança profana” entre esquerda e islamismo? Por quatro razões principais.

Primeiramente, como explica o político britânico George Galloway, “o movimento progressista ao redor do mundo e os muçulmanos têm os mesmos inimigos”, ou seja, a civilização ocidental em geral e os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e Israel em particular, mais os judeus, os cristãos e os capitalistas internacionais. No Irã, de acordo com o analista político Saeed Leylaz, “o governo praticamente permitiu o funcionamento da esquerda desde há cinco anos, de modo a que confrontassem religiosos liberais”.

Percebam estas palavras intercambiáveis: Harold Pinter descreve os Estados Unidos como “um país dirigido por um bando de lunáticos criminosos” e Osama Bin Laden chama o país de “injusto, criminoso e tirânico”. Noam Chomsky denomina os EUA como um “dos principais estados terroristas” e Hafiz Hussain Ahmed, um líder político paquistanês, considera os Estados Unidos “o maior estado terrorista”. A expressão desses atributos tão semelhantes é suficiente para convencer aos dois lados a deixar de lado suas muitas diferenças em favor da cooperação. 

Em segundo lugar, os dois lados partilham de alguns objetivos políticos. Uma gigantesca demonstração conjunta em 2003, em Londres, contra a guerra contra Saddam Hussein simbolicamente forjou a aliança. Ambos os lados querem: que as forças da coalizão percam no Iraque, que a Guerra a Terror se encerre, que o antiamericanismo se espalhe e que Israel seja eliminado. Eles concordam em relação ao multiculturalismo e à imigração em massa para o Ocidente. Eles cooperam quanto a esses objetivos em reuniões tais como a anual Conferência Antiguerra do Cairo, que congrega esquerdistas e islamistas para “forjar uma aliança internacional contra o imperialismo e o sionismo”.

Em terceiro, o islamismo tem laços históricos com o marxismo-leninismo. Sayyid Qutb, o pensador islamista egípcio, aceitou a noção marxista de etapas da história, acrescentando apenas um pós-escrito islâmico a elas; ele previu que uma era islâmica eterna viria após o colapso do capitalismo e do comunismo. Ali Shariati, o intelectual chave por detrás da revolução iraniana de 1978-79, traduziu para o farsi (língua iraniana) Franz Fano, Che Guevara e Jean-Paul Sartre. De maneira mais ampla, o analista iraniano  Azar Nafisi observa que o islamismo “toma a sua linguagem, objetivos e aspirações tanto das mais crassas formas de marxismo quanto o faz da religião. Seus líderes são influenciados por Lenin, Sartre, Stalin e Fanon, tanto quanto o são pelo Profeta”.

Saindo da teoria para a realidade, os marxistas vêem nos islamistas uma estranha realização de suas profecias. Marx previu que os lucros dos empreendimentos iriam entrar em colapso nos países industriais, levando os patrões a espremer os trabalhadores; o proletariado se empobreceria, se rebelaria e estabeleceria uma ordem socialista. Mas, ao invés disso, o proletariado dos países industriais tornou-se cada vez mais afluente, e seu potencial revolucionário murchou. Por um século e meio, observa o autor Lee Harris, os marxistas esperaram em vão pela crise do capitalismo. Então surgiram os islamistas, começando com a revolução iraniana, seguida do 11 de setembro e de outros ataques ao Ocidente. Finalmente o Terceiro Mundo tinha começado sua revolta contra o Ocidente, realizando as previsões marxistas – ainda que sob a bandeira errada e com objetivos imperfeitos. Olivier Besancenot, um esquerdista francês, vê os islamistas como os “novos escravos” do capitalismo e pergunta se não seria natural que “eles se unissem à classe trabalhadora para destruir o sistema capitalista”. Numa época em que o movimento comunista está em “decadência”, observam o analista Lorenzo Vidino e o jornalista Andrea Morigi, as “Novas Brigadas Vermelhas” da Itália de fato reconhecem o “papel principal dos clérigos reacionários”.

Em quarto lugar, poder: islamistas e esquerdistas podem obter mais juntos do que poderiam separadamente. Na Grã-Bretanha, eles formaram em conjunto a Coalizão “Pare a Guerra”, cujo comitê diretor inclui representação de organizações tais como o Partido Comunista da Grã-Bretanha e a Associação Muçulmana da Grã-Bretanha. O Respect Party  britânico mistura socialismo radical internacional com ideologia islamista. Os dois lados juntaram forças nas eleições do Parlamento Europeu de março de 2008 para oferecer listas comuns de candidatos na França e Grã-Bretanha, disfarçadas sob nomes de partidos que pouco revelavam.

Os islamistas beneficiam-se particularmente do acesso, da legitimidade, da experiência e do poder de fogo que a esquerda lhes oferece. Cherie Booth, mulher do então primeiro-ministro Tony Blair, defendeu um caso na Corte de Apelação para ajudar uma garota, Shabina Begum, a poder usar o jibab, uma vestimenta islâmica, numa escola públic a britânica. Lynne Stewart, uma advogada esquerdista, infringiu a lei americana e foi para prisão por ajudar Omar Abdel Rahman, o sheik cego, a fomentar a revolução no Egito. Volkert van der Graaf, um fanático dos direitos dos animais, matou o político holandês Pim Fortuyn porque queria impedi-lo de transformar os muçulmanos em “bodes expiatórios”. Vanessa Redgrave custeou metade das £50,000 de fiança a fim de que Jamil el-Banna, um suspeito detido em Guantánamo, acusado de recrutar jihadistas para lutar no Afeganistão e Indonésia, pudesse sair repentinamente de uma prisão britânica; Redgrave descreveu sua ajuda como “uma profunda honra”, a despeito de ele ser procurado na Espanha por acusações relacionadas a terrorismo e de laços com a Al Qaeda. Numa escala maior, o Partido Comunista Indiano fez o trabalho sujo por Teerã ao atrasar por quatro meses o lançamento, a partir de uma base indiana, do TecSar, um satélite espião israelense. E os esquerdistas fundaram o Movimento Internacional de Solidariedade, para evitar que as forças de segurança de Israel protejam o país contra o Hamas e outros grupos terroristas palestinos.

Escrevendo na revista inglesa The Spectator, Douglas Davis chama a coalizão de “uma dádiva para os dos lados. A esquerda, antes um minguante bando de comunistas, trotskistas, maoístas e castristas, estava se agarrando aos restos de uma causa gasta; os islamistas poderiam fornecer multidões e paixão, mas precisavam de um veículo que lhes desse um ponto de apoio no terreno político. Uma aliança tática tornou-se um imperativo operacional”. De maneira mais simples, um esquerdista britânico concorda: “Os benefícios práticos de trabalharmos juntos são suficientes para compensar as diferenças”.

A florescente aliança entre esquerdistas ocidentais e as fileiras islamistas é um dos mais perturbadores desdobramentos políticos de hoje, um que impede os esforços do Ocidente de proteger-se. Quando Stalin and Hitler firmaram seu infame pacto em 1939, a aliança Vermelho-Parda apresentava um perigo mortal para o Ocidente e, na verdade, para a civilização como tal. Com menos dramaticidade, mas com não menos certeza, a coalizão de hoje apresenta a mesma ameaça. Tanto quanto há sete décadas, esta precisa ser revelada, rejeitada, resistida e derrotada.

Notas:

Publicado originalmente na National Review em 14/07/08.

Também disponível em danielpipes.org

Tradução: MSM

Leia também  A ameaça da aliança profana – Parte I

 

Ditadura Esquerdista na imprensa brasileira

O que seria a “verdadeira reconciliação dos brasileiros”? A aceitação como dogma de todas as acusações sem provas, como defende a “mídia amiga” (das esquerdas) e a execração pública de militares que combateram os terroristas e guerrilheiros, mesmo que não sejam condenados pela justiça?

Já se passaram seis anos desde que Olavo de Carvalho lançou o Manifesto CONTRA A DITADURA ESQUERDISTA NA MÍDIA que foi assinado por centenas de pessoas, incluindo quase todos os articulistas deste jornal eletrônico que pode ser chamado de cria daquele Manifesto. Iniciava-se este memorável documento com as seguintes palavras:
 
A afirmação de que existe um viés, uma deformação, um preconceito esquerdista dominante na grande mídia nacional – principalmente nas páginas noticiosas e nos suplementos culturais, mas também nas páginas de diversões, nas novelas de TV, em talk shows e, enfim, em toda parte – não é simplesmente uma opinião. É a expressão fiel de um fato empiricamente constatável, que até hoje só não foi investigado e discutido livremente porque as entidades incumbidas de investigá-lo e discuti-lo – faculdades de jornalismo, sindicatos da classe e sites tipo press watch – estão igualmente a serviço da hegemonia esquerdista, que lhes interessa, por um lado, fomentar, e, por outro lado, ocultar enquanto não chegar a hora de revelá-la à plena luz do dia em todo o esplendor da sua feiúra totalitária. Quando essa hora chegar, será tarde para protestar.
 
Entre os pontos ali denunciados quero ressaltar o seguinte:
 
3. Investigações obsessivamente repetidas de violências – reais ou supostas – cometidas pelo regime militar e, em contrapartida, total silêncio quanto aos crimes cometidos pelos comunistas na mesma época.
 
E o faço para comentar as manifestações da imprensa em torno do imbróglio armado pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro, ao convocar o Seminário “Limites e Possibilidades para a Responsabilização Jurídica dos Agentes Violadores de Direitos Humanos durante Estado de Exceção no Brasil”, numa ameaça clara de revisão da Lei da Anistia promulgada em 1979 para pacificar o País, nos últimos anos do ciclo de governos militares. Estes, com justa razão, protestaram e convocaram para a última sexta-feira, no Clube Militar, outro Seminário: “A Lei da Anistia: Alcances e Conseqüências”.
 
Simultaneamente, a mídia comunista começou a se mexer para cobrir o evento. Em artigo violentamente anti-militar, e usando a velha tática difamatória de fazer denúncias sem provas, certa de que seus coleguinhas de todas as redações a repetirão, a indefectível Eliane Cantanhêde comentou no dia mesmo do encontro: “E os militares erram, gravemente, ao enaltecer figuras como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Reclamar da iniciativa de Genro, vá lá. Enaltecer torturador é o fim da picada”. A ênfase é minha para perguntar, como o fiz por carta sem resposta, quais as provas que D. Eliane tem para fazer tal acusação? Apenas testemunhos de pessoas interessadas ideológica, política e pecuniariamente na acusação? Carta mais explícita e completa foi enviada por outro missivista, que eu saiba também sem resposta.
 
No dia 5 p.p. fui procurado pelo repórter da revista Isto É, Alan Rodrigues, para conceder uma entrevista sobre o tema. Como já tive péssimas experiências no passado com entrevistas por telefone solicitei que enviasse as perguntas por e-mail com respostas pelo mesmo método. A revista pretendia fazer uma ampla reportagem com opiniões “dos dois lados” a respeito do problema. Não acreditei, mas mesmo assim respondi às perguntas (ver abaixo a entrevista integral).
 
Não foi surpresa verificar que nenhuma das minhas respostas tinha sido publicada, mas sim o tom violento de achincalhe que foi usado na edição final da matéria a se iniciar pelo título: “Tortura não é crime político”. De uma só tacada toma-se como provado o que não são nada mais do que acusações por parte de pessoas altamente interessadas em que a própria denúncia se transforme em dogma indiscutível, e se endossa sem contestação a posição do Ministro da Justiça.
 
O Seminário no Clube Militar é chamado de “manifestação dos saudosistas da ditadura” e “rebelião do pijama” que Cantanhêde chama “desacato do Clube Militar”. Os repórteres de Isto É, embora alegando imparcialidade, aduzem que “O Brasil não pode ficar refém de minorias sem voto que se valem do medo para impedir a verdadeira reconciliação dos brasileiros”.
 
O que seria a “verdadeira reconciliação dos brasileiros”? A aceitação como dogma de todas as acusações sem provas? Só com a execração pública de militares que destemidamente combateram os terroristas e guerrilheiros, mesmo que não sejam condenados pela justiça? Parece ser esta a opinião “abalizada” do entendido em terrorismo, o seqüestrador Fernando Gabeira para quem “uma saída batizada como ‘à África do Sul’ unificaria várias correntes que combateram a ditadura. Para curar as feridas do apartheid, Nelson Mandela elaborou uma Comissão de Verdade e Reconciliação que apurou os crimes do regime, mas não houve punição”. E acrescentou que “o mais importante seria a abertura dos arquivos da ditadura”. Mas é tudo o que os acusados pedem e o governo, que tem autoridade para isto, não cumpre! O site A Verdade Sufocada publica parte desta documentação onde quem quiser pode se informar.
 
Enfim, fui convidado para uma entrevista séria e imparcial que se revelou, ao fim e ao cabo, uma farsa que nada acrescenta às monótonas repetições da mídia nos últimos vinte ou trinta anos. Não acuso o repórter de má fé; acredito mesmo que tenha tido a intenção de fazer um bom trabalho, mas com já se dizia no Manifesto:
 
Essas deformações, consolidadas pelo hábito ao longo de três décadas, já são hoje aceitas como procedimentos normais, de modo que aqueles mesmos que as impõem ao jornalismo podem, ao mesmo tempo, negar a existên cia delas, sem às vezes nem mesmo perceber que estão mentindo. É que a mentira repetida se tornou verdade.
 
Comenta-se que o Presidente Lula, ao voltar de viagem desautorizou Tarso e Vannuchi e teria posto uma pedra em cima do assunto. Será? Novo round parece estar no horizonte imediato: o “Seminário Internacional Direito à Memória e à Verdade”, organizado pela revista Carta Capital com patrocínio da Caixa Econômica Federal e UNESP (Universidade Estadual Paulista), com ninguém menos do que Baltazar Garzón, enfant gâté das esquerdas mundiais desde que expediu ordem de prisão contra o General Pinochet e recusou todos os apelos dos exilados cubanos na Espanha para processar Fidel Castro. A abertura do Seminário estará a cargo do ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República.
 
E por falar em patrocínio: o nº. 2023 da Isto É, onde saiu a reportagem, tem um encarte de luxo da Petrossauro com dez páginas. Possivelmente pura coincidência! Ou não?

Notas:

ENTREVISTA PARA A REVISTA “ISTO É”
 
Entrevistador: Alan Rodrigues
Entrevistado: Heitor De Paola
Método: por E-mail
Data: 06/08/2008

 

ISTO É – Como o sr. analisa a proposta dos ministros Tarso Genro e Vannuchi de “revisão” da Lei de Anistia, particularmente, na questão da condenação aos torturadores?

RESPOSTA – Em primeiro lugar, há que investigar se realmente houve torturas. Até agora não há nenhuma prova convincente, só acusações de pessoas que têm óbvios interesses ideológicos, políticos e pecuniários – as vultosas indenizações a que teriam direito caso fossem condenados, com ou sem provas, os supostos torturadores. Estes deveriam ter amplo direito de defesa como assegura a Constituição.

ISTO É – O sr. acha que a tortura foi crime político?

RESPOSTA – O que é um crime político? A meu ver crime é crime, seja qual for a motivação alegada. Com exceção do direito à legítima defesa, nada deveria ser atenuante, muito menos o político que é planejado nos mínimos detalhes e para o qual nem o estado de privação momentânea de consciência pode ser alegado.

ISTO É – O argumento dos militantes de esquerda é que eles, que se exporam (imagino que você tenha desejado dizer expuseram?) ao voto, pagaram caro nesse período e que até hoje sofrem com seqüelas, e que os militares saíram como os vitoriosos por isso deve ser passado a limpo esse período da história. Como o sr. “vê” esse pensamento?

RESPOSTA – “Vejo” como uma série de mentiras dentro de mentiras. Note que você usa, talvez inconscientemente, os termos assimétricos, baseado no velho “dois pesos, duas medidas”: os militares são torturadores, criminosos, etc.; os terroristas e guerrilheiros são apenas “militantes”, quer dizer pessoas inocentes que somente “militaram” em organizações cujos propósitos óbvios eram o terrorismo e a guerrilha para instaurar um regime totalitário do tipo cubano, que jamais anistiou ninguém: prende, mata e tortura e ainda recebe aplausos. Nunca conheci um revolucionário que defendesse a democracia e a liberdade. Quanto aos militares terem sido vitoriosos: quem está no poder, hoje? Eles, ou os terroristas que eles combateram? O argumento de que “quem se expõe ao voto comprova sua inocência” é tão primário que nem mereceria comentários. Democracia não é júri e eleição não é tribunal! Quantos bandidos estão eleitos?

ISTO É – O sr., como ex militante, acha que essa proposta pode ser considerada como revanchismo?

RESPOSTA – Por parte de alguns indivíduos isolados, talvez sim. Mas esta proposta é muito bem elaborada – inclusive surgindo num momento em que os contatos do PT e de altos próceres do governo com as FARC estão sendo denunciados – e sua intenção é bem outra: desmoralizar, achincalhar e humilhar as Forças Armadas que, por mais que o governo faça, ainda são consideradas as instituições mais confiáveis do País. Não haverá revanche, tanto o Genro como o Vannuchi sabem que quando o processo chegar ao STF será arquivado.

ISTO É – O sr. foi militante da ALN?

RESPOSTA – Não; da Ação Popular (AP). De 1963 a janeiro de 1968, e saí exatamente porque foi decidido incrementar a luta armada – não desencadear, pois já começara em 1961, em pleno governo democrático – e não sou assassino. Por isto conheço bem os que ficaram. Além disto, o AI-5, em dezembro daquele ano, foi uma resposta e não a causa, da luta armada.
 
Copyright © Heitor De Paola. O entrevistado se reserva o direito de publicar esta entrevista em seu site ou em qualquer outro veículo após a publicação da Revista Isto É, mesmo sendo ela utilizada só em parte ou não utilizada pela Revista.

A ameaça da aliança profana – Parte I

Uma análise sobre a paradoxal, mas cada vez mais real, aproximação entre fanáticos islâmicos e revolucionários comunistas e socialistas, unidos por uma causa comum: o ódio ao Ocidente e tudo que ele representa.

“Aqui estão dois países irmãos, unidos como um único punho cerrado”, disse o socialista Hugo Chávez durante uma visita a Teerã em novembro passado, celebrando sua aliança com o islamista Mahmoud Ahmadinejad. O filho de Che Guevara, Camilo, que também visitou Teerã no ano passado, declarou que seu pai teria “apoiado o país em sua atual luta contra os Estados Unidos”. Ambos seguiram os passos de Fidel Castro, que, numa visita feita em 2001, declarou a seus anfitriões que “Irã e Cuba, em cooperação, podem fazer os Estados Unidos ficarem de joelhos”. Por sua vez, Ilich Ramírez Sánchez (“Carlos, o Chacal”) escreveu em seu livro l’Islam révolutionnaire (Islã Revolucionário) que “somente uma coalizão de marxistas e islamistas pode destruir os Estados Unidos”.

Não são apenas os esquerdistas latino-americanos que vêem potencial no islamismo. Ken Livingstone, o trotskista ex-prefeito de Londres,  literalmente abraçou o pensador islamista[1] Yusuf al-Qaradawi. Ramsey Clark, o ex-procurador geral dos Estados Unidos, visitou o Aiatolá Khomeini e ofereceu seu apoio. Noam Chomsky, o professor do MIT, visitou o líder do Hezbollah Hassan Nasrallah e apoiou a manutenção de armas por esse grupo terrorista. Ella Vogelaar, a ministra holandesa para a habitação, vizinhanças e integração, é tão simpática ao islamismo que um de seus críticos, o professor de origem iraniana Afshin Ellian, a chamou de “ministra da islamização”.

Dennis Kucinich, durante sua primeira campanha presidencial em 2004, citou o Corão e incitou um público muçulmano a entoar “Allahu akbar” (“Deus é grande”), chegando a anunciar: “Eu guardo uma cópia do Corão em meu escritório”. Spark, um jornal para jovens do Partido Trabalhista Socialista britânico, louvou Asif Mohammed Hanif, o homem-bomba britânico que atacou um bar em Tel Aviv, como um “herói da juventude revolucionária” que levou a cabo sua missão “no espírito do internacionalismo”. Workers World, um jornal comunista americano, publicou um obituário laudatório ao mestre terrorista do Hezbollah, Imad Mughniyeh.

Alguns esquerdistas vão mais longe. Vários deles – Carlos, o Chacal, Roger Garaudy, Jacques Vergés, Yvonne Ridley e H. Rap Brown – chegaram a se converter ao Islã. Outros reagem com alegria à violência e brutalidade do islamismo. O compositor alemão Karlheinz Stockhausen considerou o 11 de Setembro  “a maior obra de arte de todo o cosmos”, enquanto o falecido escritor americano Norman Mailer chamou de “brilhantes” os autores do ataque.

E nada disso é novidade. Durante a Guerra Fria, os islamistas favoreciam a União Soviética em detrimento dos Estados Unidos. Tal como o Aiatolá Khomeini afirmou em 1964, “Os Estados Unidos são piores do que a Grã-Bretanha, a Grã-Bretanha é pior do que os Estados Unidos e a União Soviética é pior do que ambos. Cada um é pior que o outro, cada um é mais abominável que o outro. Mas hoje estamos preocupados com a entidade maliciosa que é a América”. Em 1986, eu escrevi que “a URSS recebe uma pequena fração do ódio e malevolência devotados aos Estados Unidos”.

Os esquerdistas retribuíram. Em 1978-79, o filósofo francês Michel Foucault expressou grande entusiasmo pela revolução iraniana. Janet Afary e Kevin B. Anderson explicam:

Ao longo de sua vida, o conceito de autenticidade de Foucault significava observar situações onde pessoas viviam perigosamente e flertavam com a morte: o lugar de onde a criatividade se originava. Na tradição de Friedrich Nietzsche e George Bataille, Foucault seguiu os artistas que forçaram os limites da racionalidade; ele escreveu com grande paixão em defesa de irracionalidades que rompiam novas barreiras. Em 1978, Foucault descobriu tamanhos poderes transgressivos na figura revolucionária do Aiatolá Khomeini e nos milhões que se arriscavam a morrer na medida em que o seguiam no curso da revolução. Ele sabia que tais experiências ‘limite’ poderiam levar a novas formas de criatividade e ele apaixonadamente as apoiou”.

Um outro filósofo francês, Jean Baudrillard, retratou os islamistas como se estes fossem escravos rebelando-se contra a ordem repressiva. Em 1978, Foucault chamou o Aiatolá Khomeini de “santo” e, um ano mais tarde,  Andrew Young, embaixador na ONU do governo Jimmy Carter, chamou-o de “um tipo de santo”.

Esta boa vontade pode parecer surpreendente, dadas as profundas diferenças entre os dois movimentos. Comunistas são ateus e os esquerdistas em geral, seculares; os islamistas executam ateus e impõem a lei religiosa. A esquerda exalta os trabalhadores; o islamismo privilegia os muçulmanos. Uma sonha com o paraíso dos trabalhadores; a outra, com um califado. Socialistas querem socialismo; os islamistas aceitam o livre mercado. O marxismo implica igualdade entre os sexos; o islamismo oprime as mulheres. Esquerdistas desprezam a escravidão, alguns islamistas a endossam. Como ressalta o jornalista Bret Stephens, a esquerda devotou “as últimas quatro décadas defendendo as exatas liberdades às quais  o Islã se opõe: liberdades sexuais e reprodutivas, direitos gays, liberdade das normas religiosas, pornografia, várias formas de transgressão artística, pacifismo e assim por diante”.

Tais discordâncias parecem anular as pequenas similaridades que Oskar Lafontaine, ex-presidente do Partido Social Democrata alemão, conseguiu encontrar: “O Islã depende da comunidade, o que o coloca em oposição extrema ao individualismo, que ameaça desmoronar no Ocidente. Além disso, do muçulmano devoto é requerido que divida sua riqueza com outros. Os esquerdistas também desejam ver os fortes ajudando os fracos.

Notas:

[1] NT: Aos leitores eventualmente ainda não familiarizados com a terminologia do autor, é importante ressaltar que ele faz profunda distinção entre islâmico e islamista, sendo este último um adepto do islamismo, ideologia radical que faz uso do Islã para promover uma agenda de violência e terror.

Publicado originalmente na National Review em 14/07/08.  [O artigo acima inclui alguns trechos cortados da versão publicada na National Review].

Também disponível em danielpipes.org

Tradução: MSM

 

Responder à altura

O sentimento de justiça, que deve vigorar no estilo literário como em tudo o mais, exige que se chamem as coisas pelos seus nomes, o pervertido de pervertido, o mentiroso de mentiroso, o vigarista de vigarista.

Desde há alguns anos, Cliff Kincaid, editor do esplêndido site Accuracy in Media, vem colecionando declarações perversas, grotescas e sobretudo insultuosas proferidas por políticos, intelectuais e artistas de esquerda nos EUA. Insultuosas não só a esta ou àquela pessoa, a esta ou àquela nação, raça ou religião, mas ao próprio dom da linguagem, que não foi concedido ao homem para que criasse uma realidade postiça mediante a verbalização histriônica de seus sentimentos mais vis. Dentre esses sentimentos, destacam-se ali a recusa do elementar respeito aos recém-falecidos, o gosto sádico de caluniar a espécie humana, o desprezo pedante pelas mais singelas afeições familiares, a tendência compulsiva de intimidar e chantagear, a radical intolerância à liberdade de expressão e, last not least, o puro, o legítimo, o indisfarçado desejo de matar – tudo isso sublinhado pela presunção de infinita superioridade moral, que assim se revela, pelo contraste com a conduta documentada, um traço inconfundivelmente psicótico.

O leitor pode verificar em www.aim.org/wls. São milhares de citações, cada qual mais deprimente que a outra, nenhuma delas desmentida ou seguida de desculpas. Praticamente não há nos EUA celebridade “left-liberal” que não tenha dado sua contribuição a essa galeria de horrores, o mais direto e fidedigno retrato da alma esquerdista em todo o esplendor da sua baixeza.

Exorto os blogueiros do Brasil a reunir um mostruário nacional equivalente – necessidade vital a partir do momento em que o próprio presidente da República já não se vexa de chamar de “pervertidos” todos os que tenham objeções morais ao homossexualismo.

Mas o exemplário, para ser didático, deveria vir complementado por uma antologia dos eufemismos, rodeios e circunlóquios delicados com que a “direita”, encolhendo-se de servilismo ao ponto de quase desaparecer no subsolo, responde à brutalidade esquerdista, fingindo uma atmosfera de respeito mútuo, movendo guerra cultural assimétrica contra si própria e inventando para tal fim essa coisa extraordinária, jamais prevista nos manuais de lógica, que é a reciprocidade unilateral.

A diferença entre a direita brasileira e a americana, nesse ponto, é mínima. O pastor Pat Robertson, ao declarar que alguém devia dar cabo de um feroz inimigo do seu país, levanta contra si uma tempestade de invectivas e se humilha num pedido de desculpas. Apelos públicos ao assassinato de George W. Bush são tidos como normais, aceitáveis e até elegantes.

No Brasil, quem exerceu o direito elementar de responder ao sr. presidente da República que pervertido é ele?

Quando o sr. Ricardo Berzoini jura que invadir e queimar fazendas produtivas é “uma contribuição à democracia”, quem lhe responde que vá ser cínico naquele lugar?

Quando o sr. Luiz Mott fala de erotismo abraçado à estátua de um bebê, quem denuncia que isso é propaganda da pedofilia? Quando ele cisca cento e poucos gays dentre os 50 mil brasileiros assassinados por ano e faz disso uma “prova” de violência anti-homossexual endêmica, quem o acusa de improbidade intelectual?

Quanto o ministro da Saúde alega que milhares de mulheres morrem em abortos clandestinos e os próprios documentos do seu ministério provam que elas não passam de sete ou oito, quem o processa por essa fraude publicitária?

Até as Forças Armadas, quando acusadas de crimes imaginários, dão mau exemplo, omitindo-se de responder à calúnia com o devido processo judicial e optando pelo protesto tímido das “notas oficiais” praticamente inaudíveis.

Notem bem. Eu jamais aprovaria que se usase contra a esquerda o recurso, tão típico dela, à ênfase forçada, à autovitimização fingida, ao denuncismo histriônico. Mas o sentimento de justiça, que deve vigorar no estilo literário como em tudo o mais, exige que se chamem as coisas pelos seus nomes, o pervertido de pervertido, o mentiroso de mentiroso, o vigarista de vigarista.

Notas:

Publicado pelo Jornal do Brasil, 03 de julho de 2008

Professores de abstratices

Enquanto os liberais e conservadores discutiam em abstrato o sistema econômico e a estrutura do Estado, a esquerda construía, diante dos seus olhos cegos, a maior e mais poderosa organização política que já existiu no continente.

Um dos princípios fundamentais do marxismo é a união indissolúvel do conhecimento e da ação revolucionária. Quaisquer que sejam os erros da teoria, eles acabam sendo neutralizados, na prática, pela constante revisão da estratégia à luz da experiência adquirida pelo intelectual coletivo (o Partido) na sua luta pela conquista do poder absoluto e pela destruição final do adversário. A intensidade do esforço intelectual coletivo, organizado e voltado a objetivos mensuráveis, dá aos partidos de esquerda uma capacidade de ação concentrada, orgânica, que seus adversários no campo liberal e conservador nem de longe conseguem emular, e no mais das vezes nem mesmo conceber.

Na verdade, a simples necessidade de adestrar os intelectuais e organizá-los para uma ação cultural integrada é algo que jamais passou pelas cabeças dos nossos “direitistas”. No máximo, o que concebem é uma pura “disputa de idéias”, como se, uma vez demonstrada em teoria a superioridade intrínseca da livre empresa, a militância socialista se dissolvesse por si, cabisbaixa e arrependida, desistindo para sempre de suas ambições revolucionárias.

Nem de longe suspeitam que, na voragem da ação política, as idéias podem vir a representar um papel bem diverso – ou até inverso – daquilo que parecem anunciar pelo seu mero conteúdo. O intelectual coletivo , consciente dessa diferença bem como do fato de que os direitistas em geral a ignoram, diverte-se sadicamente, num jogo de gato e rato, fazendo as idéias mais ortodoxamente direitistas trabalharem pela glória e triunfo do esquerdismo.

A aposta unilateral dos liberais no enxugamento do Estado, inspirada em considerações econômicas e morais perfeitamente verazes e justas em si mesmas, mas amputadas de toda conexão com a estratégia política e cultural, só tem servido para transferir as prerrogativas do Estado para as ONGs esquerdistas, quando não para organismos internacionais perfeitamente afinados com o esquerdismo.

A idéia abstrata de lei e ordem , inteiramente correta, mas letal quando desligada do respectivo quadro cultural e estratégico, levou muitos liberais a colaborar servilmente na derrubada de Fernando Collor, a entronizar, portanto, a esquerda como detentora das virtudes morais por antonomásia e a dar-lhe por essa via os meios de elevar a corrupção a alturas que o ex-presidente não poderia nem mesmo imaginar. Não houve então um só intelectual esquerdista que, vendo o decano liberal Roberto Campos sair do hospital em cadeira de rodas para ir votar contra Collor, não se lembrasse, com enorme satisfação, da máxima de Lênin que recomenda fazer o adversário lutar contra si próprio . E não houve um só deles que não enxergasse, no sepultamento político do ex-presidente, o prenúncio da iminente ascensão petista.

Já assinalei também, nestes artigos, a facilidade com que, em prol da liberdade de mercado, liberais e conservadores admitem negociar – ou ceder de graça – os princípios morais e culturais que geraram essa liberdade e sem os quais ela não subsiste senão como etapa de transição para o socialismo. A direita deixa-se conduzir porque não tem nenhuma visão ou plano de conjunto, apenas o apego a pontos de detalhe que, de um modo ou de outro, sempre podem ser manejados para encaixar-se na estratégia abrangente da esquerda.

Para que tivesse essa visão ou plano, a direita precisaria ter formado uma genuína militância intelectual habilitada, no mínimo, a acompanhar as discussões internas da esquerda e a prever o curso das manobras estratégicas que ali se preparam. Mas como esperar que os intelectuais da direita enxerguem o futuro, se não querem nem mesmo olhar para o passado e o presente? Participei de muitos Fóruns da Liberdade , em Porto Alegre – a maior concentração de inteligências liberais e conservadoras que já se viu no Brasil – e jamais ouvi ali uma única palavra sobre o Foro de São Paulo , exceto saída da minha própria boca.

Enquanto os liberais e conservadores discutiam em abstrato o sistema econômico e a estrutura do Estado, a esquerda construía, diante dos seus olhos cegos, a maior e mais poderosa organização política – político-militar, na verdade – que já existiu no continente.

E, cada vez que falo em criar uma intelectualidade, eles me olham como se eu fosse um professor de abstratices, a quem se pode ouvir com reverência polida, mas jamais levar a sério no campo da “prática”, que eles consideram o seu terreno próprio. Como se fosse muito prático teimar no erro e perder sempre.

Notas:

Publicado pelo Diário do Comércio em 03/07/2008