História


Gramsci e as palavras-senha

Muitas pessoas bem intencionadas sentem-se confusas a respeito dos termos que devem ser usados para definir alguns conceitos.
 
 
“Uma das maiores alegrias de um comunista é ver na boca dos burgueses, nossos adversários, as nossas palavras de ordem”.
GIOCONDO DIAS
Ex-Secretário Geral do PCB
 

Volto a citar esta frase lapidar do továrishch Giocondo para abordar um assunto que confunde a mente de muitas pessoas bem intencionadas a respeito dos termos que devem ser usados para definir alguns conceitos. Não uso o adjetivo apenas no sentido frouxo de frase artisticamente perfeita, mas sim no mais restrito de inscrição em lápide, pois ela pode ser um dos epitáfios da ordem e da linguagem “burguesas”. Como exemplo inicial a palavra ética: o seu significado original hoje está tão deturpado que é sempre melhor evitá-la. Como ocorreu esta deturpação? Para isto é necessário algum conhecimento sobre a estrutura e hierarquia de um partido revolucionário e um pouco de história.
 
ESTRUTURA E HIERARQUIA
 
Todos os partidos, revolucionários ou não, são organizados em pirâmide, por isto os termos usuais bases e cúpula partidária. A diferença é que nos partidos democráticos esta pirâmide está mais ligada aos níveis decisórios, enquanto nos revolucionários há, da base para o alto, uma graduação do nível de segredos estratégicos, a ponto de, acima de um certo nível, transformar-se numa verdadeira organização esotérica que emite palavras de ordem e resoluções cuja estratégia de longo prazo não é discernível, sequer suspeitada, pelos níveis inferiores. Claro está, todos os partidos têm seus segredos, suas malícias, suas visões de longo prazo tanto quanto as eleitorais, de curto prazo. Seu intento é mudar alguma coisa restrita do mundo através de métodos políticos consensuais, como maior controle estatal ou mais liberalismo e as nuances entre os dois, decisão sobre os setores mais importantes para investimentos, visões diplomáticas diversas, etc. Além disto, aceitam o jogo democrático e a alternância no poder, isto é, aceitam a política como ela é: a arte do possível baseada em negociações.
 
Já os partidos revolucionários funcionam com base numa estratégia secreta de engenharia social, com a finalidade de mudar o mundo todo, de conformá-lo com sua visão estratégica e ideológica. Parte desta não é secreta: os fins, sempre idealizados como “um mundo melhor é possível”, mas os meios para chegar a este mundo permanecem secretos, pois são necessariamente muito violentos e despertariam rechaço por parte do eleitorado. Isto enquanto precisam de eleitores, pois para estes partidos a política não passa de um meio pelo qual se extinguirá a própria política. Aceitam a alternância no poder apenas como um meio de destruir os inimigos, não considerados apenas adversários políticos. Fingem aceitar o jogo político consensual só para liquidar com ele quando tiverem a hegemonia [*].
 
Obviamente, a estruturação de um partido com tais intenções deve ser diferente. Embora também em pirâmide, os níveis não são os mesmos dos partidos tradicionais, assim como a diferença qualitativa entre os membros dos diversos níveis. Por razões didáticas podemos grosseiramente definir os seguintes níveis, da base para o alto: idiotas úteis, companheiros de viagem, “ampliações”, militantes de base, militantes de nível intermediário, dirigentes de baixo nível e dirigentes de nível superior.
 
Entre os idiotas úteis, que nada sabem, apenas se deixam seduzir pelo canto de sereias, pela “utopia”, que anuncia um renascer mais justo e eqüitativo para a humanidade, são selecionados os companheiros de viagem, aqueles que se encarregam de tarefas sem grande importância, como panfletagem, pichações, incitação de greves, etc. São os que carregam a bandeira e se expõem aos riscos. Os mais eficientes dentre esses são selecionados como ampliações. Este termo se aplicava originalmente ao programa permanente de ampliação de quadros (aumento do número de militantes). Passou a ser usado nos casos particulares e por neologismo se transformou até em substantivo: uma “ampliação” é um simpatizante em fase de teste de “pureza ideológica” com vistas a conquistá-lo para a militância. Alguns nunca chegam neste ponto e permanecem para sempre “companheiros de viagem” e serão os primeiros a serem trucidados pelo regime revolucionário triunfante porque o choque da realidade os tornaria ferozes opositores ao perceberem que foram traídos.
 
Os militantes de base são aquelas ampliações que amadureceram e estão preparados para ler alguns documentos doutrinários e ideológicos, ainda de teor utópico. Aqueles que começam a perceber o “espírito da coisa” – que não existe utopia nenhuma, apenas luta pelo poder hegemônico – são “promovidos” a militantes de nível intermediário. Esclareça-se que tais “promoções” são de natureza totalmente secreta para o indivíduo, o qual não tem a mínima idéia de ser constantemente observado e avaliado, muito menos quais são os critérios para isto. Os militantes dos dois níveis constituem o que Orwell denominou “Partido Externo” (Winston e Julia). Orwell não podia prever que os que não foram promovidos a militantes viriam a ser organizados em estruturas auxiliares (ONG’s) que promovem as palavras de ordem do partido revolucionário sem nem saberem – com exceção dos dirigentes, ligados ao Partido Interno – de onde elas provêm ou o que significam. Os que ficarem fora da estrutura partidária, são os “Proles”.
 
Ao falarmos dos dirigentes entramos já no “Partido Interno” (O’Brien) e então se revela a verdadeira organização esotérica baseada nas sociedades secretas. Como veremos adiante, só estes começam a ter acesso ao verdadeiro significado dos termos da “novilíngua” ou a linguagem do politicamente correto. Deve-se observar que a clandestinidade é condição essencial para os dirigentes dos partidos revolucionários e não conseqüência da eventual repressão pelas autoridades. Sem a clandestinidade dos dirigentes e o segredo da estratégia, a estrutura sucumbe completamente!
 
É evidente que a correia de transmissão das decisões através de palavras de ordem deve guardar a mesma gradação de segredo dos reais con ceitos, dos verdadeiros fins e dos meios cruentos para atingi-los. O sentido de uma palavra de ordem só pode ser conhecido pelos “iniciados” do partido interno, aos demais devem ser dadas explicações mais palatáveis.
 
Vejamos outro exemplo: justiça social. De forma proposital deixa-se cada um entender o que quiser sobre este termo desde que não atinja o verdadeiro significado esotérico. No entanto, o caminho para atingir a justiça social deve ser claramente explicitado: só a redistribuição de renda levará ao tão almejado estado de coisas. Tome-se uma figura de um carro de luxo passando numa favela com crianças nitidamente desnutridas. A maioria das pessoas imediatamente associa: injustiça social! – precisamos redistribuir a renda para acabar com ela. Mas, o verdadeiro significado é: os membros do partido são os justiceiros que, através da redistribuição da renda vão deixar as crianças ainda mais famintas e o carro de luxo será desapropriado em benefício de um dos dirigentes, o qual, como grande justiceiro, terá avenidas exclusivas para trafegar (os prospekts com faixas exclusivas da URSS). Os luxuosos balneários, como Cubanacán e Siboney, expropriados para gozo e deleite dos mesmos.
 
Se isto sempre foi assim, após os estudos de Gramsci, no pós-guerra, a tarefa ficou muito facilitada. Ao perceber que a classe revolucionária por excelência não é a proletária, que jamais deixarão de ser Proles, mas a intelectualidade das classes média e abastada deu ao partido revolucionário uma ferramenta potentíssima: transformou-o no Partido-Classe, onde os dirigentes – os intelectuais orgânicos – têm consciência de constituírem não mais uma classe-em-si mas uma classe-para-si. É exatamente quando o militante adquire a noção de que a revolução é para-si, e a aceita plenamente, que ele passa a integrar o quadro de dirigentes, ou Partido Interno.
 
Aqueles que adquirem esta noção e se horrorizam com o mundo infernal que se avizinha e pelo qual lutaram, e não a aceitam, passam por uma crise de consciência terrível da qual poucos saem. A maioria, sem coragem para enfrentar a humilhação de ter acreditado e se submetido a uma grossa mentira, fica pairando como almas penadas em busca de um corpo que não as aceita mais: os antigos “camaradas” jamais confiarão nele outra vez. São os que vão engrossar o coro das ONG’s globalistas, dos movimentos “sociais” e pela “paz”.
 
Alguns, alquebrados pelo esforço, aceitam a suprema humilhação das “autocríticas” que se revelarão um ciclo interminável. Muito poucos enfrentam a angústia de aceitar a culpa e enfrentar o esforço moral e psicológico da convalescença, pois como bem o disse Aron, estas ideologias viciam como os tóxicos e criam dependência e síndrome de abstinência.
 
HISTÓRIA DAS PALAVRAS-SENHA NO BRASIL
 
O estudo intensivo da obra de Gramsci se deu na URSS a partir do XX Congresso do PCUS (1956) (ver op. cit.), mudando completamente os rumos da revolução mundial no sentido de uma revolução dos intelectuais. As condições para o estudo intensivo no Brasil se deram a partir do movimento contra-revolucionário de 1964. A clandestinidade e a momentânea supressão das atividades externas foram impostas pela Polícia e pelas Forças Armadas. Os Comitês Centrais e regionais das diversas organizações revolucionárias mergulharam fundo e, enquanto na superfície ocorria a derrota político-militar e econômica da revolução, na clandestinidade aprofundava-se a revolução cultural, levando ao quadro que temos hoje: embora derrotados, são vitoriosos porque as forças da lei, o aparelho hegemônico da burguesia, contentou-se com aquela vitória de Pirro e nem percebeu que lentamente modificava-se o senso comum da sociedade e organizavam-se os grupos sociais que viriam formar a sociedade civil organizada. (Todos os termos em itálico correspondem a categorias de Gramsci).
 
Embora não fosse esta a sua principal função estas palavras serviam como uma espécie de senha de reconhecimento mútuo, pois aquelas que elas vieram substituir não podiam ser pronunciadas ou escritas. Funcionavam como sinais, imitação das sociedades secretas como a maçonaria e nada tinham a ver com as noções “burguesas”. Lá pela década de 80 a palavra ética tomou força – movimento pela ética substituiu movimento comunista. Seguiu-se cidadania que tomou impulso com o movimento pelas diretas e a luta pela anistia levadas a cabo pelos “autênticos” (outra senha, esta genuinamente nacional) do MDB, culminando na proclamação pelo companheiro de viagem Ulisses Guimarães, da “Constituição Cidadã” que “resgatava o exercício pleno da cidadania e da ética na política”. Logo após a redemocratização o governo se viu abalroado pelos aparelhos privados de hegemonia, as organizações não governamentais (ONGs), que somando-se a este constituíram o Estado Ampliado. Cada vez mais vemos estes aparelhos privados assumindo diversas funções do governo. Desde 1994, com a plena concordância, aval e apoio financeiro do mesmo.
 
É fundamental que os liberais e conservadores tomem conhecimento do verdadeiro significado revolucionário que estes termos adquiriram e abstenham-se de usá-los para não se deixarem confundir. Um pequeno glossário é fundamental. Como não há espaço aqui cito apenas algumas mais usuais. (Não usarei a ordem alfabética para facilitar a compreensão).
 
Ética – é ética toda e qualquer ação que promova o aprofundamento da revolução. É a expressão do princípio de que “os fins justificam os meios”, em oposição total ao conceito “burguês” tradicional.
 
Liberdade – é a expressão da conformidade do cidadão com a coletividade. Não tem nada a ver com liberdade individual.
 
Democracia – não corresponde ao governo da maioria, mas ao da unanimidade baseada no consenso e hegemonia do partido-classe.
 
Consenso – conformação coletiva do grupo social com as ações do Estado ampliado, necessário para alcançar os fins éticos.
 
Hegemonia – capacidade de influência e de direção política e cultural que um grupo social exerce sobre a sociedade civil organizada e esta sobre a sociedade política. Predominância efetiva do partido-classe sobre ambas para impulsionar e fazer avançar o processo revolucionário.
 
Sociedade Civil Organizada – espaço onde atuam os aparelhos privados de hegemonia.
 
Aparelhos Privados de Hegemonia – as ONG’s, principalmente.
 
Estado Ampliado – os órgãos governamentais e as ONG’s. Também pode ser chamado de Estado Democrático de Direito por estar em constante mutação (ver meu artigo anterior).
 
Cidadania – “espaço” coletivo onde atua a sociedade civil organizada; o exercício da cidadania nada tem a ver com a atuação dos indivíduos livres, mas com este “espaço” criado pela ampliação do Estado e que obedece rigorosamente ao consenso prévio. É a submissão do cidadão ao consenso coletivo.

 

Notas:

[*] Para mais detalhes ver meu “O Eixo do Mal Latino-Americano e a Nova Ordem Mundial”, Capítulo II, 3, É Realizações, SP, 2008

A lei do barão

A escolha indireta, pela maioria parlamentar, do chefe de governo é um sistema muito superior ao da eleição direta, que, cada vez mais, favorece o acesso dos mentirosos e demagogos ao poder.

Por alguma estranha razão estabeleceu-se entre nós a idéia de que a separação dos poderes é uma espécie de primeiro mandamento da lei de Deus, determinação a partir da qual tudo deriva e sem a qual nenhum modelo de instituição pode ser concebido.

O pai da idéia foi o senhor Charles-Louis de Secondat, senhor de La Brède, para os ilustrados, ou, mais resumidamente, para nós, o Barão de Montesquieu. Isso a gente sabe, porque sua obra é bem conhecida. Surpreendente não é a idéia, nascida no berço iluminista francês em tempos de absolutismo monárquico, mas o fato de que tantas nações ainda hoje a adotem na América, ao passo que, na Europa onde foi concebida ela não encontra seguidores.

Tenho certeza de estar causando surpresa entre muitos leitores destas linhas. “O quê? Esse sujeito é contra a separação dos poderes?” Calma, meu caro. Pondere comigo antes de me abandonar na reflexão que estou propondo. Primeiro o que afirmo é verdadeiro: nenhuma das mais de duas dezenas de nações da União Européia organiza suas instituições em consonância com a tese do Barão, ao passo que, na América, temos uma formidável concentração de chefes de Estado que são, ao mesmo tempo, chefes de governo eleitos diretamente.

Quem olhe para a história dos povos da América Ibérica a partir do século 19, perceberá a instabilidade política que caracteriza o continente, a sucessão de deposições, golpes, revoluções, contra-golpes e contra-revoluções, suicídios e crises políticas que se arrastam ao longo de quase duzentos anos. Mesmo assim, estamos convencidos de haver encontrado, nas lições do Barão de Montesquieu, uma perfeição que seus vizinhos mais chegados não vislumbraram.

O Brasil, no período do Segundo Império, sob a égide de um sistema que atribuía a chefia do governo à maioria parlamentar, viveu o mais extenso período de estabilidade política da história continental. Por outro lado, a partir do momento em que abandonou esse modelo, nosso país passou a compartilhar dos males que eram vividos por todos os vizinhos de língua espanhola. 

Atribuir a chefia do governo ao partido ou bloco partidário que constituir maioria parlamentar é uma ação política que responsabiliza essa maioria perante o governo e a minoria perante a oposição. Nesse sistema, os parlamentares da base operam comprometidos com o governo, de cujo sucesso depende a manutenção de suas cadeiras e os da oposição ficam, de fato, comprometidos com o contraditório. Ademais, ele permite a substituição do mau governante de modo rápido e não-traumático, a preservação do bom governante pelo tempo que for conveniente, a dissolução do parlamento, e fecha a porta do governo para os que se valem da ingenuidade das massas. A escolha indireta, pela maioria parlamentar, do chefe de governo é um sistema muito superior ao da eleição direta, que, cada vez mais, favorece o acesso dos mentirosos e demagogos ao poder. As mais bem sucedidas democracias jamais deram bola para a lei do barão.

Lula e as FARC

Os comunistas, como sempre, transformam as derrotas mais acachapantes em vitórias retumbantes.

Depois de comparecer em Brasília à posse presidencial de Fernando Collor, em 15/03/90, com todas as mordomias de praxe, Fidel Castro rumou para São Paulo e entrevistou-se com Lula da Silva. Seu objetivo – no auge da desintegração da URSS, quando Cuba perdeu a mesada anual de US$ 6 bilhões prodigalizada pelos russos – era articular com o Partido dos Trabalhadores o ressurgimento de uma nova OLAS – a malograda Organización Latinoamericana de Solidaridad proposta por Salvador Allende logo após a Conferência Tricontinental de Havana, realizada em 1966, cujo objetivo seria “estender a luta revolucionária a todos os países da América Latina e cotejar a OEA” – a Organização dos Estados Americanos, que conta com a presença efetiva dos Estados Unidos.

Quatro meses depois, sob os auspícios do Partido Comunista de Cuba (PCC) e do PT de Lula se instalava na capital paulista o Foro de São de Paulo, reunindo 48 partidos e organizações comunistas procedentes de 20 países da região. Entre eles, o Movimento de Izquierda Revolucionaria (MIR, responsável pelo seqüestro do empresário Abílio Diniz), a Frente Sandinista de Liberación Nacional (FSLN, patrocinada pelo estuprador Daniel Ortega) e, como membros fundadores da entidade, o Ejército de Liberación Nacional (ELN) e as Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC), cujo objetivo era desestabilizar a frágil democracia colombiana.

Em abril de 1993 as Farc, de livre trânsito no Foro, explodiu 200 quilos de dinamite na Embaixada do Brasil em Bogotá, no mesmo dia em que o governo (Itamar Franco) recebia em Brasília a visita oficial do chanceler da Colômbia. No atentado, morreram 43 colombianos, ficando feridas cerca de 350 pessoas, entre funcionários e diplomatas lotados na embaixada brasileira.

Mas o ato de terrorismo contra o nosso serviço diplomático não inibiu o relacionamento do PT com os companheiros da guerrilha colombiana. Pelo contrário. Pouco depois, para firmar aliança estratégica com as FARC, a liderança do PT de Ribeirão Preto – ligada diretamente ao prefeito Antonio Palocci – fundou o Comitê de Solidariedade aos Movimentos de Libertação Nacional da Colômbia, tendo à frente, entre outras personalidades, o falso padre Oliverio Medina, tido como embaixador das FARC no Brasil.

Há suspeita concreta de que a solidariedade petista pelas FARC não se deu apenas no plano ideológico: Oliverio Medina (um dos três codinomes de Francisco Antonio Cadena Colazzos) foi o portador – segundo declarações por ele feitas numa festa da chácara “Coração Vermelho”, nos arredores de Brasília – de doação de US$ 5 milhões à campanha presidencial do PT de Lula, em 2002, conforme relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), de Nº 0097/3100.

Sensível ao labor da guerrilha, Lula da Silva, em novembro de 2002, já eleito presidente da República, assinou com todas as letras manifesto em defesa das FARC, ao tempo em que acusava o governo colombiano de praticar “terrorismo de Estado”.

(Aqui, convém ressaltar: mesmo condenado por homicídio e terrorismo na Colômbia, o falso padre Medina, arquivado processo de extradição, saiu da cadeia por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), em março de 2007, gozando hoje, em Brasília, status de ativo “refugiado político”. Em boa parte – segundo informações contidas no computador de Raúl Reyes, o líder n° 2 das FARC morto no Equador -, pela gestão diplomática de Celso Amorim, o chanceler do Itamaraty Vermelho. De quebra, o integrante das FARC ainda teve a mulher, Angela Maria Slongo, contemplada pelo governo com cargo comissionado na Secretaria Nacional da Pesca).

O fato é que desde 1990, quando da instalação do Foro de São Paulo, as FARC sempre estiveram presentes aos encontros periódicos da entidade subversiva, debatendo teses e acatando resoluções, visto pertencerem ao núcleo de dirigentes instalados na cúpula do “Grupo de Trabalho”. Ainda recentemente, em maio último, no encerramento do XIV Encontro do Foro realizado em Montevidéu, os membros da representação petista ovacionaram de pé as palavras de louvação prestadas por Daniel Ortega ao falecido Manuel Marulanda Vélez, o “Tirofijo”, criador das FARC.

O próprio Lula, em discurso presidencial pronunciado durante a celebração dos 15 anos de existência do Foro de São Paulo, em julho de 2005, procurando dissimular as relações desta entidade com a organização guerrilheira movida pelo narcotráfico, assassinatos e seqüestros, confessou, desprezando a Constituição do País, que utilizava “a relação construída no Foro para que pudéssemos (ele e, entre outros, os companheiros das FARC) conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política (do governo)”.

No mês passado, antes do exército colombiano resgatar sem gota de sangue a ex-senadora Ingrid Betancourt (típica representante da “esquerda festiva” francesa) e outros 14 reféns das mãos criminosas das FARC, Celso Amorim, porta-voz do governo, disse solenemente que “O Brasil não faz classificação de quais organizações são terroristas e, por isso, não iria discutir se as FARC entram ou não nesta categoria”. As palavras de Amorim advinham, até certo ponto, do fato de se ver lançada por terra a pretensão (secreta) do Governo Lula de negociar com a guerrilha o resgate dos reféns.

Por isso Lula, antes considerando as FARC uma “organização insurgente”, deu marcha-ré e, diante da vitória memorável do presidente Uribe, considerou “abominável” o ato de seqüestro industrializado pela guerrilha. Ele disse: “Eu espero que as FARC tenham sensibilidade de participar do jogo democrático e liberar todos os reféns que ainda existem em suas mãos”. 

Voltarei ao assunto, mas só para concluir: os comunistas, como sempre, transformam as derrotas mais acachapantes em vitórias retumbantes. Passados os instantes de perplexidade, o Foro agora rearticula o seu Plano B, inspirada na “grande estratégia unificada” que consiste na “inserção dos guerrilheiros e seus simpatizantes na vida pública” colombiana, para se desalojar Uribe do poder. A propósito: Ingrid, provável candidata à presidência, está aí para isso mesmo.

A liquidação da Oposição Operária na Rússia

O caso do Partido Bolchevique, que constituiu uma experiência localizada e condicionada por fatores peculiares da situação na Rússia do inicio do século passado, acabou por tornar-se modelo universal de organização revolucionária.

Você não se interessa pelas ideologias, mas as ideologias se interessam por você.

A política que a partir de 1918 foi implantada na Rússia pela Revolução Bolchevique praticamente colocou na ilegalidade todas as organizações de massa dos trabalhadores que não fossem os sindicatos oficiais – chapa branca -, aboliu o direito de greve, admitiu a implantação de normas que permitiram cassar as entidades sindicais, restringiu e depois retirou dos sindicatos o direito de eleger livremente os seus dirigentes e, finalmente, permitiu a demissão por decreto das diretorias sindicais, inaugurando a prática de nomeação de seus dirigentes. A política que serviu de suporte para tais desdobramentos não surgiu do nada.

Ela foi apenas a evolução de uma mesma matriz original que concebia o partido como hierarquia não só das organizações de revolucionários mas também da massa das organizações operárias, conforme escreveu Lênin em 1904.

Em setembro de 1920, na IX Conferência do Partido Bolchevique, o recém-formado grupo de Oposição Operária fez sua primeira aparição pública na Rússia. Meses mais tarde, esse grupo viria a constituir-se na mais numerosa corrente que, dentro do partido, se opunha aos encaminhamentos políticos da direção bolchevique: 124 delegados contra os 154 favoráveis ao Comitê Central.

Além de combater o sistema de nomeações e cooptações feitas pela cúpula do partido, propondo a volta das eleições internas, a Oposição Operária discordava do intervencionismo do Comitê Central nos sindicatos e nos sovietes (organizações de massa).

Esse debate, que antecedeu o X Congresso do partido, teve seu ponto alto em janeiro de 1921. Então, o grande combate não era mais entre Lênin e Trotsky. Embora defendendo plataformas diferentes, ambos estavam, então, tacitamente unidos contra o inimigo principal, a Oposição Operária, que era o grupo bolchevique de oposição com base proletária mais numerosa e mais influente junto à classe operária, em especial junto aos metalúrgicos e, de certa forma, exprimia a reação da maioria do proletariado russo à política de militarizar os sindicatos e convertê-los, de fato, em organismos a serviço do Estado, com dirigentes não-eleitos, mas cooptados, nomeados pelo Estado a partir de indicações do partido.

Lênin pressentiu o perigo e articulou medidas visando cortar o mal pela raiz, esmagando, enquanto era tempo, o agrupamento dissidente, proibindo sua existência e tentando dissociar-se da antipática posição de Trotsky favorável à estatização dos sindicatos.

Adotando a posição meramente teórica da não-vinculação formal dos sindicatos nem ao partido e nem ao Estado, Lênin conquistou em Trotsky um aliado tático para a tarefa de extermínio da Oposição Operária. Essa aliança tática resultou em que, no X Congresso, realizado em março de 1921, dentre os quase 700 delegados com direito a voto, a Oposição Operária só tenha conseguido 18 delegados! Foram vários os procedimentos utilizados, desde a pressão sobre os Comitês do partido, ao boicote e até à fraude pura e simples.

A direção do partido, utilizando a máquina partidária para preparar o Congresso, pôs em ação os departamentos políticos criados no Congresso anterior com a finalidade de controlar os diversos comitês e organismos do partido. Onde encontrava algum obstáculo ou resistência, o CC substituía os militantes por appratchiks fiéis à sua orientação. Foi o caso, por exemplo, da Comissão de Controle do CC, da qual, um mês antes do Congresso, Yevgeni Alekseyevich Preobrazhensky e Felix Dzerzhinsky foram demitidos sob a alegação de serem demasiado complacentes com a Oposição Operária, sendo substituídos por burocratas.

Em janeiro de 1921, Lênin, em um artigo publicado pelo Pravda, assinalou: “Temos que combater a confusão ideológica dos elementos nocivos da oposição, que chegam ao ponto de repudiar toda a militarização da economia, de repudiar não só os métodos de nomeação, que têm sido os métodos predominantes até agora, mas inclusive todas as nomeações. Isso significa repudiar o papel dirigente do partido em relação às massas sem-partido. Temos que combater o desvio anarco-sindicalista que matará o partido se este não o eliminar completamente”.

A queimação das teses da Oposição Operária, tachadas de anarco-sindicalistas, a caracterização dos grupos divergentes como tendências anti-partido e a implantação de encaminhamentos anti-democráticos na preparação do X Congresso, eram justificados pela necessidade de salvar a revolução, de consolidar a unidade ante os grandes perigos internos que, após a guerra civil, o novo Estado ainda tinha que enfrentar.

Tais concessões ao autoritarismo, no entanto, como a História demonstrou, salvaram, na realidade, o país da democracia proletária, se é que isso existe.

Finalmente, chegamos ao histórico X Congresso do Partido Bolchevique, em março de 1921. Lênin abriu o Congresso com um discurso dirigido aos delegados da Oposição Operária que, como já vimos, estava em minoria: “Neste Congresso devemos dizer claramente que não permitiremos debates sobre desvios. Temos que acabar com isso (…) O ambiente de discussões está se tornando extremamente perigoso e se convertendo em uma ameaça direta à ditadura do proletariado”.

Fiel a essa orientação, o Congresso foi mais longe, não apenas rejeitando as teses da Oposição Operária, como também proibindo sua existência, iniciando um processo de perseguição aos seus membros até o total aniquilamento, um ano mais tarde.

As tais teses da Oposição Operária, rejeitadas pelo Congresso, propunham, basicamente, a adoção de quatro medidas: a volta à democracia interna, com a abolição dos métodos militaristas que exigiam a subordinação cega às ordens superiores; a transformação do partido em um partido mais operário, eliminando de seu seio os elementos não-proletários e estabelecendo novas condições de ingresso para todos os que quisessem voltar às suas fileiras; garantia de que os operários estreita mente ligados às massas trabalhadoras detivessem a maioria nos postos administrativos; volta ao princípio da elegibilidade dos responsáveis e à ampla discussão nas bases de todas as questões importantes sobre a atividade do partido e a política soviética, antes que a direção se pronunciasse.

Para a Oposição Operária – isso em 1921 – as nomeações não poderiam ser toleradas e constituíam uma das características da burocracia. Somente as conferências e congressos deveriam eleger candidatos capazes de ocupar postos administrativos de responsabilidade. Eliminar a burocracia já então enquistada no partido e no Estado, era para a Oposição Operária uma necessidade para a construção da nova sociedade.

A Oposição Operária argumentava que as medidas que propunha não faziam mais do que reafirmar o caminho que Marx e Engels esboçaram no Manifesto Comunista. Ou seja, que “a libertação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores”.

Nesse mesmo X Congresso, Trotsky usou da palavra para denunciar que os membros da Oposição Operária haviam proposto palavras-de-ordem perigosas, transformaram os princípios democráticos em fetiche e colocaram acima do partido o direito dos trabalhadores de elegerem os seus representantes, como se o partido não tivesse o direito de exercer a sua ditadura, mesmo se essa ditadura entrasse em conflito com o humor variável da democracia operária.

Entretanto, foi Lênin quem desfechou o golpe de misericórdia, propondo ao Congresso a aprovação de duas resoluções políticas: uma, condenando a plataforma da Oposição Operaria como desvio anarco-sindicalista (expressão até hoje empregada pelos comunistas de todo o mundo para caracterizar aqueles que lhes são contrários no movimento sindical), e outra proibindo definitivamente a sua existência legal e o seu funcionamento. Tudo isso em nome da… unidade do partido.

Na Resolução aprovada pelos delegados, o Congresso concedeu ao Comitê Central plenos poderes para aplicar as sanções ao alcance do partido no sentido de que fosse aniquilado todo o fracionismo.

Estabelecida a condenação, teve início a perseguição que prossegue até hoje a todos os tipos de oposição operária. Tudo em nome da… unidade do partido.

Dois meses depois, em maio de 1921, surgiria a primeira oportunidade de o Comitê Central colocar em prática os “plenos poderes” que lhes foram delegados pelo Congresso: no Congresso Nacional do Sindicato dos Metalúrgicos, o CC apresentou uma lista de candidatos para preencher os cargos de direção desse sindicato, onde a Oposição Operária mantinha a sua principal base de apoio, a fim de eleger uma diretoria fiel à linha oficial. Essa chapa, no entanto, foi derrubada pelos delegados, por 120 a 40 votos, fazendo com que a direção do partido da classe operária, ignorando solenemente a decisão do Congresso, simplesmente nomeasse os seus próprios candidatos.

Finalmente, no XI Congresso do partido, em março de 1922, a Oposição Operária já havia sido aniquilada, como queriam Lênin e Trotsky.

Somente para não esquecer: nesse XI Congresso, Stalin foi nomeado Secretário-Geral do partido e, nesse mês e ano, foi fundado o Partido Comunista do Brasil.

O caso do Partido Bolchevique, que constituiu uma experiência localizada e condicionada por fatores peculiares da situação na Rússia do inicio do século passado, acabou por tornar-se modelo universal de organização revolucionária, reproduzindo, assim, tanto as limitações impostas pelas condições concretas do meio social onde se desenvolveu, quanto a concepção que orientou a sua construção e atuação nesse meio, impondo um padrão único e passando a ser um carimbo para reproduzir, em série, os partidos comunistas de todo o mundo, autenticados pelo cartório do Komintern.

Komintern – A ajuda fraternal aos partidos comunistas de todo o mundo

O Partido  sempre valorizou e considerou mais útil a seus interesses estratégicos um homem tido como de direita, com acesso aos organismos empresariais ou de Segurança, que um provado e leal militante. Essa foi a realidade.

O Komintern – Organização internacional comunista fundada por Vladimir Lenin e pelo Partido Comunista da União Soviética em março de 1919, que pretendia lutar com “todos os meios disponíveis, inclusive armados, para derrubar a burguesia internacional e estabelecer uma República Soviética internacional como um passo transitório à completa abolição do Estado”.

Após a Revolução Bolchevique de 1917, na Rússia, foram criadas forças e partidos comunistas em vários países, que logo aceitaram as famosas 21 condições exigidas pela III Internacional – também conhecida como Komintern ou Internacional Comunista – para que fossem reconhecidos em nível internacional. O Komintern foi assim definido pelo “Pequeno Dicionário Político”, editora Progresso, Moscou, 1984: “Estado-Maior ideológico e político do movimento revolucionário do proletariado”.

Em troca da adesão, o Komintern outorgava a esses partidos a patente de revolucionários, numa relação periferia-centro que pouco tempo depois ficaria conhecida como Movimento Comunista Internacional. Essa foi a origem dos vínculos que, por 70 anos, os comunistas da ex-União Soviética mantiveram com todos os partidos comunistas do mundo.

Para Lênin, que dirigiu a Revolução Bolchevique, o Komintern tinha como objetivo “lutar por todos os meios possíveis para a derrubada da burguesia internacional e criação de uma revolução mundial soviética, como etapa de transição à completa abolição do Estado”. Nesse contexto, a ditadura revolucionária do proletariado era o único caminho possível para “libertar a humanidade dos horrores do capitalismo”.

Logo depois da Revolução Bolchevique, em 1925, foi instalado em Buenos Aires o Bureau Sul-Americano (BSA) do Komintern, com a tarefa de coordenar as atividades dos partidos comunistas da região. Nesse sentido, o papel do Partido Comunista Argentino (PCA), como correia de transmissão da política do Komintern, passou a ser decisivo, uma vez que, então, o PCA já possuía contatos com dirigentes da Internacional, em Moscou, que eram os que, de fato, dirigiam o PC Argentino.

Nessa época o PCA era o partido comunista mais importante da América Latina, e já contava, em 1923, com cerca de 3.300 militantes.

Em 1928 o Bureau Sul-Americano passou a ter existência legal na Argentina e a refletir as forças e as precariedades do Komintern na região. A bolchevização, ou seja, a aplicação irrestrita das 21 condições leninistas e a adesão incondicional à União Soviética era a condição essencial para que um partido comunista fosse admitido como membro do Komintern. O Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922, logo aceitou essas condições. Tanto é assim que sua denominação era Partido Comunista do Brasil, Seção Brasileira da Internacional Comunista.

Segundo o dirigente comunista argentino Luis Sommi, enviado do PCA ao Komintern, em fins de 1934 foi realizada em Moscou a III Conferência Comunista Latino-Americana, na qual foi aprovada a deflagração, no Brasil, de um movimento armado. Nesse sentido, a Conferência respaldou a criação da Aliança Nacional Libertadora, que pouco tempo depois, em julho de 1935, viria a ser efetivamente criada como uma organização de fachada do PCB.

Sob a tutela da Internacional Comunista, criaram-se uma série de organizações internacionais, entre as quais pode-se citar: Internacional Sindical Vermelha (Profintern), Internacional da Juventude Comunista, Socorro Vermelho Internacional (MOPR), Internacional Camponesa (Krestintern) e Internacional Desportiva Vermelha (Sportintern);

Em 15 de maio de 1943, depois de celebrada a Conferencia de Teerã, o Presidium do comitê executivo da Internacional Comunista, “tendo em conta a maturidade dos partidos comunistas” nacionais, e para evitar os temores dos países capitalistas aliados, decidiu disolver a Internacional Comunista.

Em 1947 foi criada a Kominform (Oficina de Informação Comunista) como substituta da Komintern, que reunía os Partidos Comunistas da Bulgária, Checoslováquia, França, Hungria, Itália, Polônia, a União Soviética e Iugoslávia. Foi dissolvida em 1956 por Nikita Kruschev.

William Waak, em seu livro “Camaradas”, assinala que a Intentona Comunista seria impossível de ser explicada sem levar em conta a personalidade carismática de Prestes, já então membro do Comitê Executivo do Komintern. Baseado em dados inéditos, pesquisados nos arquivos do Komintern, em 1993, em Moscou, William Waak demonstra que a Intentona Comunista foi mais uma ação do prestismo do que do comunismo.

Em 1932, quando o general Agustín Justo tomou o Poder na Argentina, em decorrência de um golpe de Estado, o Bureau Sul-Americano foi tornado ilegal, passando a funcionar em Montevidéu.

Sobre o tão falado Ouro de Moscou, ou seja, a ajuda fraternal que o PC Soviético sempre deu a todos os partidos comunistas do mundo, deve ser assinalado que sustentar um exército de revolucionários profissionais que tornasse possível a manutenção de casas ilegais (aparelhos), imprensas, depósitos para literatura, aparatos de autodefesa, gráficas, serviços de Inteligência, etc, requeria muito dinheiro. Dinheiro que os PCs da região não tinham. Nesse contexto, a ajuda fraternal, embora limitada para as necessidades sempre crescentes, não era desdenhável. Aos partidos comunistas antepunham-se duas alternativas: o caminho das expropriações revolucionárias ou o da penetração nos grandes âmbitos econômicos – os chamados empreendimentos partidários. Todos os partidos comunistas do mundo optaram por este último caminho, que requeria pessoas fiéis e incorruptíveis.

O Ouro de Moscou, no entanto, não fluía sem limites e, muitas vezes, nem em montantes significativos que atendessem a todas as necessidades partidárias. Todavia, esse auxílio fraternal foi muito mais amplo do que se possa imaginar, conforme os balancetes dados a conhecer em Moscou após o fim da União Soviética, a partir de 1991. Seguindo o jornal Konsomolskaya Pravda de 8 de abril de 1992, o PCUS, somente em 1990 – ou seja, 5 anos após a implantação das políticas da glasnost e perestroika, de Gorbachev – “ajudou com mais de US$ 200 milhões os partidos irmãos do mundo, entre os quais o da Espanha e Portugal e quase todos da América Latina. Os mais beneficiados foram os partidos comunistas do Chile (US$ 700 mil) , da Argentina, da Venezuela e de El Salvador (US$ 450 mil cada um). Os do Brasil e Colômbia receberam US$ 400 mil cada um. Os partidos de tendência comunista da Espanha receberam US$ 300 mil e o PC Português, o primeiro da lista, U$ 1 milhão”.

O apoio político e a ajuda fraternal, todavia, não eram dados apenas aos partidos comunistas fiéis a Moscou, como seria lícito supor. Ao final da década de 70, dos diversos exilados latino-americanos que foram acolhidos e viveram em Moscou e em países do bloco comunista, cerca de 100 pertenciam à organização argentina de luta armada Montoneros, segundo registra o livro El Oro de Moscu, 1994, de Isidoro Gilbert, ex-chefe da agência de notícias soviética Tass, em Buenos Aires. Ou seja, o PCUS, que se sobrepunha ao Estado soviético, apoiava também as organizações de luta armada, ao mesmo tempo em que mantinha negócios e relações diplomáticas com os países onde essas organizações atuavam, como ficou claro com o apoio em dinheiro, armas e treinamento aos militantes da Frente Patriótica Manuel Rodriguez, uma cisão do Partido Comunista Chileno que, em meados da década de 80 descambou para a luta armada.

Essa ajuda fraterna era, todavia, muito mais ampla que as cifras mencionadas pelo Konsomolskaya Pravda. Implicava também em financiamento de editoras, gráficas, jornais, revistas, viagens de membros do aparelho dirigente ao exterior, férias anuais em casas de repouso na Criméia, educação política e treinamento de quadros nas escolas do partido, em Moscou, inclusive treinamento militar e outros tipos de auxílio. Muitos negócios no comércio exterior foram facilitados graças à interferência do Departamento de Relações Internacionais do PCUS, ao qual se vinculavam os partidos comunistas de todo o mundo, através de um “referente” (membro do aparelho do Departamento de Relações Internacionais responsável pelos assuntos de um PC determinado, encarregado de encaminhar e buscar solucionar todos os problemas, que ordinariamente surgiam, envolvendo o partido comunista ao qual ministrava assistência). O “referente” fazia também as vezes de “perevodchic” (intérprete) quando das reuniões de visitantes comunistas com funcionários de maior hierarquia do PCUS. Os “referentes” sempre conheceram de perto e influenciaram nas lutas íntimas dos partidos comunistas aos quais davam assistência política.

Nos casos de intermediação de negócios de comércio exterior, os partidos comunistas recebiam comissões por parte das empresas nacionais que haviam sido ajudadas. Mas, na medida em que o socialismo real se foi degradando, particularmente após 1985, quando Gorbachev assumiu o Poder na URSS, sua decadência influenciou negativamente sobre esses negócios, bem como sobre os empreendimentos partidários, pois nenhum deles conseguiu adaptar-se à situação de livre mercado. Na Rússia de hoje, conforme a imprensa dá conta quotidianamente, o fim do PCUS deixou a várias frações e diversos ex-dirigentes pós-soviéticos alguns negócios, dando origem ao que hoje é chamado máfia russa.

Depois que o PCUS foi formalmente colocado na ilegalidade e declarado extinto, em agosto de 1991, seus arquivos secretos foram abertos e, alguns deles, rapidamente fechados. Velentin Falin, último chefe do Departamento de Relações Internacionais do PCUS, que em fins de 1992 solicitou e obteve asilo político na Alemanha – onde havia sido embaixador – declarou que “em meados de março de 1990, uma grande injeção financeira foi recebida pela maioria dos partidos comunistas estrangeiros. O da França recebeu US$ 2 milhões, o do Chile US$ 700 mil, os da Alemanha e Portugal US$ 500 mil cada um, o do Líbano US$ 400 mil, o de Luxemburgo US$ 270 mil, e os da Índia e Argentina US$ 250 mil cada um” (jornal Novedades, Moscou, 27 de setembro de 1992).

Também o livro “A Conspiração do Kremlin”, escrito conjuntamente pelo Procurador-Geral da Rússia, Valentina Stepankov, por seu segundo, Evgueny Lisov, e pelo jornalista Pavel Nikitin, assinala que o PCUS doava cerca de US$ 20 milhões de ajuda financeira, anualmente, aos partidos comunistas e organizações revolucionárias de todo o mundo. Esse montante é considerado correto pelo general da KGB, hoje na reserva, Nokolai Leonov.

Todavia, a imaginação criadora daqueles que geriam os fundos financeiros do PCUS não tinha limites. Havia outras formas de enviar dinheiro aos partidos comunistas estrangeiros. A Federação Sindical Mundial, a Federação Mundial da Juventude Democrática, a União Internacional de Estudantes, a Federação Democrática Internacional de Mulheres, e outras entidades que integravam o Movimento Comunista Internacional, também possuíam seus canais, se bem que mais modestos, de remeter ajuda fraternal às entidades similares dos países do Ocidente.

Essa tarefa de auxílio aos revolucionários de todo o mundo teve início em 1920, logo depois da Revolução Bolchevique, através do Serviço de Relações Internacionais do Komintern, entidade conhecida pela sigla OMS (Otdel Mezhdunarodnykh Suyasey), que era a alma do aparato secreto do Komintern, pois controlava os códigos para a transmissão e o recebimento de mensagens, bem como as planilhas sobre o financiamento aos partidos comunistas, que eram manuscritas, a fim de que delas não tomassem conhecimento olhares menos confiáveis.

Existiam, então, representantes do OMS em todo o mundo, aos quais cabia a tarefa de fazer chegar essa ajuda fraternal a quem de direito. Esses representantes, contudo, não devem ser confundidos com os dirigentes do Komintern enviados ao exterior para educar na doutrina científica os membros dos partidos comunistas estrangeiros. Os partidos comunistas da América Latina, por exemplo, durante toda a existência do Komintern, desativado por Stalin em maio de 1943, receberam a ajuda financeira através do Bureau Sul-Americano, em Buenos Aires e, posteriormente, em Montevidéu.

Nesse sentido, é edificante o quadro publicado por William Waak, na página 210 do seu livro “Camaradas”, relacionando “os gastos justificados ao Komintern de abril a setembro de 1935” com a conspiração que resultou na Intentona Comunista. Segundo esse quadro, desde então, Luis Carlos Prestes era um assalariado do Komintern, recebendo a quantia de US$ 1.714,00.

A nova situação criada com o fim da União Soviética e o desmantelamento do PCUS afetou fundamentalmente as finanças dos partidos comunistas de todo o mundo, que a partir de 1992 não mais receberam a ajuda fraternal à qual haviam se acostumado por 70 anos, levando à falência os jornais, revistas, gráficas, editoras e demais empreendimentos da maioria – senão de todos – os partidos comunistas do mundo.

A bem da verdade, deve ser assinalado que essa múltipla colaboração, sob a hegemonia do PCUS e sob a égide do Movimento Comunista Internacional, não obscurece o talento e o sacrif& iacute;cio de milhares de militantes que integraram os aparatos anônimos dos partidos comunistas de todo o mundo, que participavam de comícios, greves políticas, distribuição de panfletos e colagem de cartazes, tarefas essas que marcaram a ferro e fogo as personalidades da grande maioria desses anônimos que fizeram dessa profissão o seu modo de vida e jamais conheceram outro, e da vida um alheamento da realidade. Profissão que deglutiu famílias e pessoas diabolicamente convencidas de estarem lutando por um mundo melhor.

A esses, o dinheiro nunca chegou. Viviam como pedintes, do que era denominado “circulismo”. Isto é, de arrecadar dinheiro em seu círculo de amigos, colaboradores e simpatizantes. Muitos desses militantes agora perguntam: “O que se passou?”. Nada, apenas o tempo…

Contraditoriamente, o Partido (com inicial maiúscula) sempre valorizou e considerou mais útil a seus interesses estratégicos um homem tido como de direita, com acesso aos organismos empresariais ou de Segurança, que um provado e leal militante. Essa foi a realidade. Realidade que não significou, absolutamente, o fim da História. Pelo contrário, o mundo encontra-se apenas no início de um período duvidoso, carregado de imponderáveis. Mais perigoso que o dos tempos da Guerra Fria. As perspectivas são várias e as diversas conjecturas estão em aberto.

As origens do politicamente correto

Politicamente correto é igual a marxismo cultural. É marxismo traduzido de termos econômicos para termos culturais. É um esforço que começa não nos anos 1960, com os hippies e o movimento pacifista, mas sim na Primeira Guerra Mundial. Se nós compararmos os conceitos básicos do politicamente correto com o marxismo, o paralelo entre eles é bastante óbvio.

De onde vêm todas essas coisas que se ouve falar – o feminismo, o movimento gay, as estatísticas inventadas, a história reescrita, as mentiras, os protestos e todo o resto? Pela primeira vez na história os americanos têm motivos para tomar cuidado com o que dizem, com o que escrevem, com o que pensam. Eles têm que ter medo de usar a palavra errada, a palavra tida como ofensiva, insensível, racista, machista ou homofóbica.