Literatura


Bruno Tolentino e a “esterilidade palavrosa”

A tese de que a Semana de 22, quando analisada no contexto da literatura brasileira, foi um evento não só desnecessário, mas completamente dispensável, ganha força a cada parágrafo do ensaio Banquete de ossos, publicado em 1998. “[…] Tragicamente nos apalhaçamos em 22 no vão intuito de dar o salto que afinal nem demos nem […]

Heitor e Aquiles: dois caminhos para a masculinidade

Para os antigos gregos, a Ilíada de Homero era a Bíblia em Andreia – Isto é, masculinidade, principalmente coragem masculina. Diziam que Alexandre o Grande mantinha uma edição especial do poema épico (preparado por seu tutor Aristóteles) debaixo do travesseiro durante suas conquistas, e a lia costumeiramente. Para Alexandre, Aquiles era a andreia encarnada, e […]

Problemas da literatura atual

Não são adultos falando.

Penso em muitas coisas quando leio esses contos estendidos que hoje recebem o nome de “romance” — impressos com letra grande e num papel de alta gramatura, do contrário caberiam em 10 ou 15 páginas.

Faz alguns meses, fui à livraria, peguei uma pilha de “romancistas” atuais, sentei numa poltrona e comecei a ler.

A tarde passou. Fui interrompido duas ou três vezes. Recusei um café. E quando fechei o último livro percebi que quase todos eram do mesmo autor.

Não eram — mas tratavam dos mesmos problemas, com as mesmas lamúrias, a mesma conversinha fiada em primeira pessoa, como se o autor estivesse abrindo seu coração para o psicanalista ou, pior, para um dono de botequim.

Quem pode descrever o horror?

Quem desejar conhecer um pouco da história de Anna Akhmátova, uma das raras inteligências que permaneceram altivas na Rússia comunista, deve ler Anna, a voz da Rússia – vida e obra de Anna Akhmátova (Editora Algol), escrito por Lauro Machado Coelho.

Por recomendação do meu caro Flávio Morgenstern, cujos artigos no Implicante.org são sempre imperdíveis, fui ler Anne Applebaum – e escolhi, para começar, o livro que concedeu a essa colunista do The Washington Post o Prêmio Pulitzer de não-ficção em 2004: Gulag: A History.

Anne Applebaum tem um estilo límpido e a leitura flui de maneira agradável – apesar de “agradável” não ser o adjetivo correto para qualificar um livro que narra a história dos campos de trabalho forçado da União Soviética, prática comunista semelhante aos campos de concentração do nazismo, mas, por razões que me parecem evidentes, pouco comentada num país como o nosso, no qual a intelectualidade em peso é formada por pessoas que consideram os Gulags um mal menor na gloriosa jornada comunista rumo ao Paraíso terreno.

Apontamentos sobre um bestiário — Olavo de Carvalho e “O imbecil coletivo”

Todos os que militaram na esquerda sabem o quanto Olavo está certo; sabem que tal contradição é reconhecida e exaltada, nas fileiras esquerdistas, com o descaramento típico dos que se consideram acima do bem e do mal – e, principalmente, acima de todos os seus semelhantes.

Passados quase vinte anos desde sua primeira edição, esgotado há pelo menos um triênio, O imbecil coletivo, de Olavo de Carvalho, continua a constranger e afrontar a intelligentsia esquerdista nacional, que se mostrou, até o momento, incapaz de realizar um debate à altura das proposições olavianas, preferindo encaramujar-se na mudez aparente, por meio da qual recusa o debate franco mas porta-se como velha alcoviteira.

Envolver seus oponentes num halo de silêncio e desprezo ou refutá-los utilizando argumentos ad hominem – nessas duas atitudes pusilânimes resume-se a estratégia da esquerda para derrotar aqueles que não rezam segundo o catecismo marxista-leninista. Veja-se, por exemplo, o tratamento ministrado a Gilberto Freyre durante décadas, o esquecimento a que se condenou Álvaro Lins (depois de abandonar o catolicismo, tornou-se marxista, mas nunca se submeteu a ditames partidários) e as críticas que Wilson Martins recebeu depois de morto, como a de Flora Süssekind, que propôs “matar mais uma vez” o crítico literário.[1] Em todos esses casos, contudo, as estratégias esquerdistas funcionaram apenas temporariamente: o reconhecimento de Freyre não pára de crescer; Lins volta a ser, gradualmente, estudado pelos jovens; e os sete volumes de A história da inteligência brasileira, de Martins, receberam nova edição, revista e atualizada, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Veritas filia temporis, non auctoritatis [2] diziam, com razão, os antigos.

O escritor que venceu o Brasil

“Any art contributes toward the realization of cosmopolis when it promotes reflection on the shortsightedness of merely practical, merely group, or merely national interests. It does so as well when it encourages our identification with others in the human drama not because they are our kin or belong to any specific nation, class, or race, but just because they are human”
Glenn Hughes, Transcendence and History

Em passeio pela América Central e Caribe, carreguei comigo “A Alma da Festa” (Realejo Livros, 2013), o novo romance de Alexandre Soares Silva, lançado em novembro passado.

Confesso que vinha enrolando a leitura, procrastinando, empurrando pra frente. Pensava: “Ok, o Alexandre escreve bem, é um blogueiro engraçado, sua imaginação é assombrosa… Mas um romance? Será que ele dá conta? Será que não vou me decepcionar? Será que não é apenas um livrinho divertido, um passatempo, um livro escrito por um Luis Fernando Veríssimo de direita?” Meu amigo Fausto Tiemann, que entende das coisas, já me alertara que não; dissera-me que o livro era bom, que o autor havia captado muito bem a mesquinharia da realidade brasileira presente, que valia a pena lê-lo. Mas eu não me convenci. Leviano, levei o livro como leitura de piscina.

A hora para reler Eliot

Nota de Rodrigo Gurgel:
Por que voltar aos ensaios de T. S. Eliot? Foi o que me perguntei quando selecionava os textos que pretendia analisar no curso “A Descoberta do Ensaio”. Os trechos abaixo, retirados de “O que é um clássico?” – originalmente escrito como um discurso à Virgil Society, proferido em 1944 –, respondem à pergunta; e também corroboram o que Russell Kirk disse a respeito de Eliot: “É possível que em uma distante época futura, quando a história do século XX parecer bárbara e desconcertante como as crônicas da Escócia medieval, a aguda perspicácia de Eliot deva ser lembrada como a luz mais clara que resistiu às trevas universais”. Pensamento que me leva a repetir o que afirmo a alguns amigos: esta é a hora para reler Eliot.


Evolução da língua e maturidade da literatura
A maturidade de uma literatura é um reflexo da sociedade dentro da qual ela se manifesta: um autor individual – especialmente Shakespeare e Virgílio – pode fazer muito para desenvolver sua língua, mas não pode conduzir essa língua à maturidade a menos que a obra de seus antecessores a tenha preparado para seu retoque final. Por conseguinte, uma literatura amadurecida tem uma história atrás de si – uma história que não é apenas uma crônica, um acúmulo de manuscritos e textos dessa espécie, mas uma ordenada, embora inconsciente, evolução de uma língua capaz de realizar suas próprias potencialidades dentro de suas próprias limitações.

Ad Hominem Entrevista: Olavo de Carvalho

“O problema essencial é restaurar o senso da filosofia como uma disciplina integral da inteligência, superando, de um lado, a mutilação burocrático-profissional e, de outro, o empastelamento ideológico-partidário.”

HÁ QUASE vinte anos, a indigência intelectual brasileira, sempre tão orgulhosa de suas nobres realizações, ganhava nome e sobrenome: O Imbecil Coletivo – Atualidades Inculturais Brasileiras. O sucesso clamoroso do livro, que em pouquíssimos meses esgotou várias edições, era, a um só tempo, acontecimento preocupante e auspicioso: se de um lado ficava evidente que a inteligência nacional – ou sua falta – seria suficiente para preencher dezenas de volumes, em contrapartida o interesse pelo diagnóstico e possível tratamento sugeria que talvez não estivéssemos condenados a desaparecer do mundo civilizado de forma definitiva.

Muita coisa piorou de lá pra cá. A ascensão do PT ao poder, a hegemonia do pensamento de esquerda – predominantemente em sua versão gramsciana – e a quase absoluta sonegação de todo pensamento filosófico e político que não seja, de modo mais ou menos explícito, afeito às comodidades e cumplicidades daquilo que um dia já ousaram chamar de “jornalismo”, parecem denunciar o fracasso do empreendimento intelectual e pedagógico de Olavo de Carvalho. Se tudo piorou e a “longa marcha da vaca para o brejo” é mesmo o inescapável roteiro do pensamento guarani-kaiowá, que é que se ganhou com tudo isso?

Um diálogo sobre liberdade, esquerdismo e universo cultural brasileiro

Estive com Bruno Garschagen recentemente, no encontro de intelectuais organizado por Olavo de Carvalho em Richmond (Virgínia). Após uma semana de amplas discussões sobre a vida cultural brasileira, voltei para São Paulo, mas Garschagen permanece nos EUA, agora pesquisando, no Russell Kirk Center, em Mecosta, para sua tese de doutorado. Lá, participou da Acton University e, no próprio Russell Kirk Center, do seminário Russell Kirk and the Six Canons of Conservatism, onde proferiu a palestra “The Freedom and the Property: The Kirk’s Fourth Canon of Conservative Thought”.

Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford (visiting student), Garschagen é autor do texto de apresentação de Os Caminhos para a Modernidade: os Iluminismos Britânico, Francês e Americano, da historiadora Gertrude Himmelfarb, e escreveu o prefácio de O que é o Conservadorismo, do filósofo político inglês Roger Scruton (no prelo).

Olavo, o sobrevivente

Daqui a 20 ou 30 anos, se a cultura brasileira conseguir sobreviver ao processo de esvaziamento espiritual que a vem degradando continuamente, o filósofo Olavo de Carvalho será lembrado como o grande líder intelectual das últimas gerações. Ainda que a mentalidade revolucionária espalhe o seu domínio absoluto sobre todos os campos do saber, sempre haverá alguém para afirmar – talvez não em voz alta, por causa da patrulha – que o célebre autor de O Imbecil Coletivo resistiu corajosamente à marcha do nosso país rumo ao brejo da barbárie ideológica.

Desde 1994/95, quando lançou os fundamentais A Nova Era e a Revolução Cultural e O Jardim das Aflições, Olavo de Carvalho tem sido uma referência para quem acredita na cultura como expressão dos mais altos valores espirituais de um povo. De 3 a 7 de junho, o professor Olavo reuniu, na sua casa-biblioteca em Richmond (EUA), cinco escritores para discutir a degradação cultural brasileira e os rumos da literatura em língua portuguesa.