terrorismo


Terrorismo como ele é

Paradoxalmente, as organizações terroristas, que desprezam a lei e a ordem existentes, são freqüentemente respaldadas por essas mesmas leis que almejam destruir.


“É essencial fazer o processo de interrogatórios funcionar. A guerra contra o terrorismo não será decidida pelo poderio da mão-de-obra ou da artilharia, como na 2ª Guerra Mundial, mas localizando os terroristas e sabendo quando e onde os ataques futuros poderão acontecer. Esta é uma guerra na qual a Inteligência é tudo. Vencer ou perder depende de informações de Inteligência”.
(Cadeia de Comando – A Guerra de Bush do 11 de setembro às Torturas de Abu Ghraib, Seymor Hersh, editora Ediouro, 2004)

 

O texto abaixo é uma síntese de diversos artigos já publicados pelo autor sobre o tema Terrorismo. Contém, porém, alguns dados inéditos sobre o tema.

A possibilidade de uma organização não-estatal relativamente pequena e fraca infligir um dano catastrófico, é algo genuinamente novo nas relações internacionais e representa um desafio sem precedentes à segurança. Todo o edifício da teoria das relações internacionais é construído em torno do pressuposto de que os Estados são os únicos participantes significativos na política mundial. Se uma destruição catastrófica pode ser infligida por agentes que não são Estados, então muitos conceitos que fizeram parte da política de segurança ao longo dos dois últimos séculos – equilíbrio de poder, dissuasão, contenção e assemelhados – pedem sua relevância. A teoria da dissuasão, em particular, depende de o usuário de qualquer forma de arma de destruição em massa ter um endereço e, com ele, ativos que possam ser ameaçados em retaliação.

As regiões fronteiriças entre Afeganistão e Paquistão, e entre Paquistão e Índia, reúnem 65 diferentes grupos de guerrilheiros e terroristas. Somando-se a mais de 30 grupos atuando no Iraque, o resultado significa que a Ásia Central é a região mais turbulenta do planeta.

Segundo Nigel Inkster, diretor da área de Ameaças Transnacionais e Risco Político do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, o número de grupos violentos “não estatais” aumentou em 10% no último ano – são cerca de 400 em todo o mundo (coletiva de imprensa, disponível no site do instituto: www.iiss.org).

– Definição de terrorismo

Definir o que é terrorismo não é uma tarefa fácil. O terrorismo é uma forma de propaganda armada. É definido pela natureza do ato praticado e não pela identidade de seus autores ou pela natureza de sua causa. Suas ações são realizadas de forma a alcançar publicidade máxima, pois têm como objetivo produzir efeitos além dos danos físicos imediatos. Pode ser dito que o terrorismo é o emprego sistemático e premeditado da violência contra alvos não-combatentes a fim de intimidar governos e sociedades. Em toda a sua existência, a ONU não conseguiu obter um consenso para uma definição do que é terrorismo.

Vilipendiado pela maioria das pessoas, defendido pelos seus instigadores, a verdade é que o terrorismo conseguiu prioridade na cobertura da mídia. Sua incidência mais que dobrou nos últimos 20 anos e se transformou em um dos mais prementes problemas políticos da atualidade. Suas características multifacetadas, suas letalidade e imprevisibilidade, que não custam caro, tornam a prevenção e controle difíceis, dispendiosos e não confiáveis.

As definições abaixo comprovam que não há uniformidade nem mesmo entre os órgãos de Inteligência e de Segurança de um mesmo país sobre o tema terrorismo:

“O uso ilegal da força ou violência contra pessoas ou propriedades para intimidar ou coagir um governo, uma população civil, ou qualquer segmento dela, em apoio a objetivos políticos ou sociais” (FBI);

“O calculado uso da violência ou da ameaça de sua utilização para inculcar medo, com a intenção de coagir ou intimidar governos ou sociedades, a fim de conseguir objetivos, geralmente políticos, religiosos ou ideológicos” (Departamento de Defesa dos EUA);

“Violência premeditada e politicamente motivada, perpetrada contra alvos não combatentes por grupos sub-nacionais ou agentes clandestinos, normalmente com a intenção de influenciar uma audiência” (Departamento de Estado dos EUA).

Nessa lista de definições, o ponto comum fica evidente mas há diferenças de ênfase. O FBI frisa a coerção, a ilegalidade e as agressões contra a propriedade em apoio a objetivos sociais bem como políticos. O Departamento de Estado coloca a ênfase na premeditação, frisa a potencial motivação política de grupos sub-nacionais, mas não faz referência à violência espontânea ou à significação psicológica da ação ameaçada. O Departamento de Defesa, com mais abrangência, dá igual destaque à violência real ou ameaçada, cita uma faixa mais ampla de objetivos e inclui entre os possíveis alvos não só governos como também sociedades inteiras.

As definições de terrorismo conhecidas provocam interrogações. Uma delas: por quais critérios os terroristas devem ser considerados por executarem atos ilegais ou ilegítimos? Essa é uma questão que desperta a atenção dos cientistas políticos. Há concordância generalizada de que é importante examinar o contexto em que o terrorismo e os terroristas operam. Ou seja, os fatores históricos, sociais, econômicos, étnicos e até psicológicos que têm alguma influência sobre o pensamento, o comportamento e a ação dos terroristas (http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=5606&language=pt).

No Brasil, mesmo com a crescente pressão internacional, o governo não irá mais propor ao Congresso a tipificação do crime de terrorismo. Essa decisão – segundo o jornal O Globo de 15 de novembro de 2007 – de sepultar o projeto antiterrorista consta de um relatório do grupo criado pela Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e Levagem de Dinheiro (Enccia), formado por representantes dos ministérios da Justiça, Defesa, Relações Exteriores, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e membros do Ministério Público Federal e do Judiciário. Após um ano de estudos, esses especialistas ent enderam que a classificação de terrorismo como crime “é inviável”. O Gabinete de Segurança Institucional, em relatório enviado ao Ministério da Justiça, comunicando essa decisão, alegou que qualquer definição “seria mortal para os movimentos sociais e grupos de resistência política”.

Também não existe lei no Brasil que defina o que é uma organização criminosa, segundo o ministro Cayres de Brito, do STF, em 17 de agosto de 2007, durante uma sessão do julgamento dos 40 quadrilheiros do Mensalão. A menos que se apreenda uma ata da criação de uma organização criminosa, dificilmente se poderá ter provas de sua existência, segundo o ministro.

Essas lacunas constituem, sem dúvida, um fator de força para o terrorismo e o crime organizado.

– O terrorismo e a Convenção de Genebra

Um dos mais condecorados militares, o general francês Massu, em seu livro A Batalha de Argel, fez a apologia da “tortura funcional, que poupa a vida da vítima mas obtém a informação necessária”. Defendeu a violação da Convenção de Genebra na Argélia, argumentando que os combatentes argelinos não eram soldados regulares e, por isso, não têm direito à proteção dada ao prisioneiro comum. O terrorista vitima não-combatente, põe bombas em aviões civis, em trens de passageiros comuns, matando mulheres e crianças. Argumento diverso não é o dos consultores jurídicos do governo Bush: “A Convenção de Genebra trata da guerra e não do terrorismo” (http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=2792).

Objetivos e características do terrorismo

– O objetivo básico do terrorismo é buscar estabelecer um clima de insegurança, uma crise de confiança que a comunidade deposita em um regime, que facilite a eclosão ou o desenvolvimento de um processo revolucionário. Ou seja, objetiva criar artificialmente as condições objetivas que tornem factíveis uma revolução;

– O alvo, para os terroristas, é irrelevante, pois o que lhes interessa “não é a natureza do cadáver, mas sim os efeitos obtidos”, conforme escreveu Carlos Marighela, no final dos anos 60, em seu Minimanual do Guerrilheiro Urbano;

– Os prédios públicos, instituições e instalações que desempenham funções importantes e simbolizam a ordem vigente são os alvos preferidos. Também ataques indiscriminados e ao acaso contra a população, visando atingir suas atividades quotidianas, em supermercados, lojas, restaurantes, aeroportos, estações rodoviárias e ferroviárias, trens e metrôs, objetivando, nesse caso, fomentar um clima generalizado de medo e o sentimento de que ninguém está seguro, em parte alguma, seja qual for sua importância política, como foi o caso do atentado em 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, em Nova York, e 11 de março de 2004 a um trem de passageiros, em Madri;

– Uma das características que define o terrorismo moderno é a sua internacionalização, resultante de três fatores, até certo ponto complementares: a cooperação existente entre organizações terroristas; o fato de Estados nacionais soberanos apoiarem grupos terroristas e utilizarem o terror como meio de ação política, especialmente no Oriente Médio; e a crescente facilidade com que terroristas cruzam fronteiras para agir em outros países;

– Os terroristas não têm origem no proletariado e sim na chamada classe média, uma vez que a causa do terrorismo não é a pobreza e sim problemas políticos. A motivação política é a característica fundamental do terrorismo;

– Embora os grupos terroristas envolvam cerca de 80 diferentes nacionalidades, os mais ativos têm sido os palestinos, sendo que, para os grupos religiosos islâmicos, tanto o capitalismo como o socialismo são um mal. Eles dizem agir em nome de Maomé, com quem alegam ter ligação direta;

– As organizações dedicadas ao terrorismo começaram a agir sem vínculos entre si e sem inspiração ou ajuda externa. Hoje, todavia, coordenam suas atividades, prestam serviços umas às outras, emprestam-se homens e armas, compartilham campos de treinamento, e algumas têm por trás de si Estados que as financiam, que lhes dão guarida, armam, fornecem documentação e comandam suas operações;

– O terrorismo deve ser combatido de uma forma total e coordenada, sob pena de fugir ao controle. Uma defesa puramente passiva – o contra-terrorismo – historicamente não tem constituído um obstáculo suficiente para conter o seu desenvolvimento. O anti-terrorismo, ao contrário, sugere uma estratégia ofensiva, com o emprego de toda uma gama de opções para prevenir e impedir que atos terroristas ocorram, levando a guerra aos terroristas. Essa, todavia, não é uma tarefa simples. Exige Serviços de Inteligência altamente capacitados e governos determinados, uma vez que, nesse caso, as represálias são levadas a efeito antes que haja qualquer ataque. Antes, portanto, que sejam causados quaisquer tipos de danos. O anti-terrorismo é, portanto, uma resposta a algo que ainda não ocorreu. Nesse sentido, talvez não constitua surpresa o fato de Otto Von Bismarck, o grande chanceler alemão, ter comparado a guerra preventiva a “cometer o suicídio por medo de morrer”. É geralmente considerado legítimo recorrer à defesa violenta em resposta a graves ameaças que inflijam extensos sofrimentos humanos ou coloquem em risco a própria sobrevivência da sociedade. Todavia, esse critério da grave ameaça é escorregadio na aplicação específica. Como na maioria dos julgamentos humanos, a avaliação da gravidade da ameaça envolve sempre alguma subjetividade. A grave ameaça prescreve uma escolha de opções, mas a escolha de opções violentas também formata, muitas vezes, a construção da grave ameaça;

– É impossível proteger por todo o tempo todos os alvos em potencial, ficando assim, sempre, os terroristas, com a vantagem da iniciativa. Para que essa proteção fosse efetiva seria necessário implantar um Estado-policial, exatamente o tipo de situação que os terroristas gostariam que fosse criada, pois, assim, teriam um inimigo fascista para combater… em nome da democracia. Uma democracia não pode utilizar um cidadão em cada cinco para ser policial; não pode fechar suas fronteiras e nem restringir as viagens dentro do país; nem manter uma vigilância constante sobre cada hotel, cada prédio, cada apartamento em cada andar; e nem gastar horas revistando carros nas ruas e bagagens de viajantes nos aeroportos e em terminais rodoviários;

– Finalmente, assim sendo, uma das únicas defesas contra o terrorismo é a possibilidade de realizar uma infiltração com a finalidade de interceptar e conhecer antecipadamente quando e onde um alvo deverá ser atacado. Essa, contudo, é, como já foi dito, uma tarefa para um excepcional Serviço de Inteligência, aliada a dois componentes essenciais: vontade política e decisões que não temam riscos, mormente agora, em que o fundamentalismo islâmico substituiu o marxismo e o anarquismo como principal ideologia revolucionária utilizada para justificar, gerar e difundir o terrorismo. Todavia, é um fato de que quanto mais brutais forem as represálias contra o apoio da população às atividades terroristas, menor será o apoio ao governo. Por outro lado, também é verdadeiro que os grupos que se valem da coerção e do terror para conseguirem o apoio da população, colocam em risco os seus interesses de longo prazo e apresentam à Inteligência oportunidades para recrutar informantes e penetrar nas organizações terroristas ou insurgentes.

O objetivo de recordar os conceitos acima foi a publicação pela imprensa da oportunista – esse é o adjetivo correto – decisão dos representantes dos 192 países que compõem a Organização das Nações Unidas (ONU), aprovada em 8 de setembro de 2006, às vésperas do quinto aniversário do ataque às Torres Gêmeas, de “adotar uma estratégia global contra o terrorismo”. Isso, sem antes, durante toda a sua trajetória desde que foi fundada, conseguir definir para o mundo o que seja terrorismo de uma forma aceitável a todas as pessoas e Estados (http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=5220&language=pt).

– O terrorismo é a arma dos fracos

O terrorismo é a arma dos fracos. Existe, todavia, uma tendência nas sociedades ocidentais de identificar o “lado fraco” com o “lado justo”. Essa tendência faz com que as organizações insurgentes ou terroristas, ou ainda de ideologias religiosas reacionárias, mesmo agindo contra a maioria da opinião pública, contra os desejos da maioria do povo, aproveitem-se dessa tendência – “lado fraco”, “lado justo” – e usem a mídia para tentar aumentar o apoio à sua causa, embora nas atividades terroristas os civis inocentes tornem-se o alvo principal.

Apesar de ser considerada a arma dos fracos, o general Aleksandr Sakharovski, um dos chefes da KGB, definiu, em 1967, o novo rumo a ser seguido pelo comunismo internacional: “No mundo de hoje, quando as armas nucleares tornaram obsoleta a força militar, a nossa principal arma deve ser o terrorismo”. (citado por Olavo de Carvalho – O Orvalho Vem Caindo, Diário do Comércio, 05 de novembro de 2007).

Paradoxalmente, as organizações terroristas, que desprezam a lei e a ordem existentes, são freqüentemente respaldadas por essas mesmas leis que almejam destruir. Leis que garantem os direitos individuais e que buscam evitar que o governo penetre na privacidade das pessoas, que não permitem prisões indiscriminadas, que proíbem o uso de pressões irresistíveis durante interrogatórios e que determinam o seguimento estrito dos procedimentos legais. Tais leis servem como um dispositivo importante na proteção aos insurgentes e aos terroristas. Além disso, em nome da democracia, as leis geralmente não se opõem a que as organizações levem a cabo operações abertas para organizar-se, recrutar novos membros, publicar jornais e panfletos e até angariar fundos (http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=4988).

Apesar de todos os obstáculos legais, “é essencial fazer o processo de interrogatórios funcionar. A guerra contra o terrorismo não será decidida pelo poderio da mão-de-obra ou da artilharia, como na 2ª Guerra Mundial, mas localizando os terroristas e sabendo quando e onde os ataques futuros poderão acontecer. Esta é uma guerra na qual a Inteligência é tudo. Vencer ou perder depende de informações de Inteligência. Estamos diante de um inimigo que não luta, ataca ou planeja de acordo com as leis da guerra”. (Cadeia de Comando – A Guerra de Bush do 11 de setembro às Torturas de Abu Ghraib, Seymor Hersh, editora Ediouro, 2004).

Nesse sentido, o Novo Manual de Contra-Insurgência dos EUA (http://www.defesanet.com.br/zz/war_fm3-24.htm) define, em seu capítulo terceiro, que é “indispensável a preparação da Inteligência, no ambiente operacional e antecedendo as operações a serem realizadas”, ficando evidente a máxima que, na atualidade, numa campanha de contra-insurreição bem sucedida, é impositivo que “a Inteligência conduza as operações”.

No Brasil, recentemente, foi alterado o regulamento da Agência Brasileira de Inteligência–Abin, sendo criado um Departamento de Contra-Terrorismo, organismo que, conceitualmente, busca levar a guerra aos terroristas, imobilizando-os antes mesmo que pratiquem qualquer ato criminoso. Ou seja, uma busca pelo que ainda não foi feito, o que exige órgãos de Inteligência de alta qualidade. Tudo isso, contudo, não deixa de ser um paradoxo, pois como funcionará um Departamento de Contra-Terrorismo se nem os experts da ONU e nem os do governo brasileiro conseguiram ainda definir o que seja Terrorismo?

Tampouco, no Brasil, se conseguiu definir o que é uma organização criminosa (ministro Cayres de Brito, do STF, em 27 de agosto de 2007).

Cavalheiros do outro mundo

O apoio da esquerda, em especial do PT, aos narcoterroristas das FARC é ocasional e isolado? Não, é uma atitude permanente.

Lendo sobre a operação de resgate de Ingrid Bettancourt lembrei-me de algo com que me havia deparado na internet, há poucas semanas. Fui atrás da matéria e lá estava ela, ainda disponível, publicada em bem conhecido site de esquerda, no dia seguinte à morte do narco-guerrilheiro Raúl Reyes, na famosa operação do exército colombiano. O referido texto sustentava, pura e simplesmente, que aquela ação militar não se destinara a matar Reyes, mas fora concebida para eliminar Ingrid Bettancourt e evitar sua iminente libertação. Por quê? Porque a ex-senadora, em liberdade, poderia atrapalhar os projetos de Álvaro Uribe para se manter no poder, ora. A gente precisa ser muito idiota para não perceber uma coisa tão evidente assim, não é mesmo?

Como se vê, a criatividade da esquerda não-democrática é inesgotável. A matéria, aliás, ainda acrescenta este vaticínio: “Nas próximas semanas, assim que as comunicações do lado popular tornarem a se ajustar, é quase certo que a notícia seja divulgada, no que Uribe tentará acusar as FARC de a terem matado como represália, o que seria ridículo, bem se sabe”.

Bem se sabe. Bem se sabe que não há limite para a insensatez dessa gente. Assim como não tem uma palavra de verdade, o longo arrazoado não tem uma palavra sobre narcotráfico nem sobre o delírio totalitário representado pela luta de guerrilha num país sob normalidade constitucional e bem definida periodicidade eleitoral. Nenhuma palavra sobre a violência representada pela prática do terrorismo e do seqüestro. Silêncio absoluto sobre a insanidade de uma guerrilha mantida que já dura quatro décadas. Nada. Toda a criatividade concentrada em conceber uma hipótese e a partir dela extrair conclusões venenosas que justifiquem a conduta delinqüente dos companheiros. E sempre atribuindo aos adversários a própria malícia.

Caso isolado? Não, atitude permanente. Em janeiro de 2001, aqui em Porto Alegre, foi realizada a primeira edição do Fórum Social Mundial. Dezenas de milhares de companheiros do mundo inteiro se concentraram na capital gaúcha para conviver e aplaudir as grandes figuras da esquerda mundial. Todos defensores de “um outro mundo possível”, amantes da paz, do amor e da democracia. Quais foram os principais ícones do beatífico evento? Quais as personalidades mais reverenciadas e aplaudidas por aquelas figuras turbinadas por tão elevados valores humanos? Ninguém mais nem menos do que os democráticos, fraternos e solidários Ricardo Alarcón (presidente da Assembléia Nacional de Cuba) e Javier Cifuentes, que dirigia a representação das FARC. Lugares para estar próximos a esses cavalheiros eram disputados a cotovelaços.

Lula candidato fez das FARC parceiras importantes do seu Foro de São Paulo. Lula presidente se recusou a declarar que elas são uma organização terrorista. Até hoje não ouvi qualquer voz petista reconhecer e condenar o narcotráfico controlado pela guerrilha. Há bem poucos dias, a morte de Manuel Marulanda, o maior líder dessa organização criminosa suscitou homenagem póstuma na reunião do Foro de São Paulo, em Montevidéu, e a memória do bandido foi saudada com vibrantes aplausos por uma platéia que se pôs em pé para não deixar dúvidas quanto à sua reverência. Em outras palavras: como são incorrigivelmente elevados os ideais desses cavalheiros do outro mundo!

Tá com medinho, “seu” Chávez? Então pede pra sair!

Chávez está com medo mas, como todos os líderes totalitários não se importa muito em perder coisas materiais, desde que não perca o poder.

“Os mitos desmoronam por si mesmos mas só podem ser totalmente
banidos pela verdade”.
Dmitri Volkogonov

O presidente Hugo Chávez está entrando em seu inferno astral mas conta com bons estrategistas que o ajudam a mudar o rumo da prosa quando a luz vermelha se acende. É característico de seu comportamento obsessivo-compulsivo falar o que pensa sem medir as palavras e de tomar atitudes, as mais absurdas e criminosas, sem prever as conseqüências que podem advir desses rompantes.

Dentre estes fatos os mais notórios dos últimos tempos são: a modificação de 69 artigos da Constituição, na qual foi derrotado no Referendum de 2 de dezembro de 2007; os destemperados rótulos e xingamentos ao presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, que considera um “cachorro do Império”; a solicitação ao mundo para acolher as FARC como um “agrupamento político beligerante”; o anúncio na Assembléia Nacional de que mastigava folhas de coca diariamente, ofertadas pelo cocalero Evo Morales, presidente da Bolívia; o minuto de silêncio em cadeia nacional pela morte de Raúl Reyes, e, finalmente, a criação da Lei do Sistema Nacional de Inteligência e Contra-Inteligência.

Esta Lei estabelece que todo cidadão fica obrigado a cooperar ilimitadamente com os novos órgãos de Inteligência, com os Conselhos Comunais chavistas e demais associações da militância e, em caso de negar-se a fazê-lo, será punido com uma condenação de dois a quatro anos de cárcere e se for funcionário público a pena é de quatro a seis anos de prisão. No Art. 19, a nova Lei autoriza o “emprego de qualquer meio especial ou técnico para a obtenção e processamento de informação”(Gaceta Oficial Nº 38.940 de 28 de maio de 2008), o que significa que os novos agentes secretos de Chávez podem interceptar correspondência, grampear ligações telefônicas, torturar para obter informação, seqüestrar, drogar, violentar, ameaçar, humilhar em público e até assassinar, tudo em nome da “Segurança Nacional”.

Quando esta Lei foi divulgada começaram as pressões, inclusive dentro das Forças Armadas, para anular esta aberração que Chávez criou utilizando-se das prerrogativas da Lei Habilitante. Uma semana depois, no programa dominical “Alô, Presidente”do dia 8 de junho, aparece um novo Chávez, conciliador, fazendo um mea culpa pelos “exageros” cometidos na tal Lei, alegando em sua defesa ter-se lembrado da tentativa de golpe liderado por ele em 1992 e que não fora, nem aceitaria, ser coagido para delatar quem quer que fosse porque isto era uma violação aos direitos humanos. Em vista deste “reconhecimento”, suspendeu a tal Lei até que fossem revistos alguns artigos.

Ainda no mesmo programa pediu que as FARC se desmobilizem e entreguem todos os reféns, porque a “guerra de guerrilhas é história” e “não se justifica derrocar um governo democraticamente eleito”. Dias depois foi a vez de Rafael Correa, o boneco de ventríloquo de Chávez, repetir o mesmo discurso cínico dizendo: “Por favor, já basta, deixem as armas, vamos ao diálogo político e diplomático para encontrar a paz. Dissemos isso 500 vezes”. (…) “Que futuro tem uma guerrilha que combate um governo democrático, ao menos em aparência, e que não tem nenhum apoio popular no século XXI?”.

Bem, esta solicitação de Chávez teve boa acolhida no governo colombiano e o presidente Uribe agradeceu o gesto de seu par venezuelano [1], passando por cima de todas as agressões e ofensas. Por outro lado, a Corte Suprema de Justiça da Colômbia solicitou à Scotland Yard que revisasse os computadores de Raúl Reyes para corroborar o informe da INTERPOL de que o material ali encontrado era autêntico e não fora violado, alterado ou suprimido.

O que se depreende de todas estas informações? Em primeiro lugar, Chávez pode ter iludido o mundo inteiro com estas declarações, parecendo ter recobrado a sensatez, mas não aos venezuelanos que o conhecem muito bem. Sua popularidade de dezembro até os dias de hoje despencou para risíveis 28% e este é um ano de eleições importantes, para prefeitos e governadores. Ele ainda aguarda o aval do Brasil para ingressar no MERCOSUL e ser defensor das FARC nesse momento depõe contra. Chávez sabe que as FARC estão em franco declínio – em decorrência do excelente trabalho realizado pelos orgãos de Segurança colombianos -, que contam com não mais que míseros 3% de apoio popular e que a Venezuela também é vítima deste bando terrorista por seqüestros, assassinatos e pelo tráfico de drogas e armas.

A Venezuela tem um dos índices de seqüestros mais elevados do mundo – muitos deles pelas mãos das FARC, que Chávez não reclama porque não rendem dividendos políticos – e os crimes por encomenda cresceram tanto, que já são uma das principais causas de morte no país. Por outro lado, os venezuelanos já foram vítimas da espionagem chavista – extra-oficialmente – através das famigeradas listas “Tascón” e “Maisanta” e continuam sendo perseguidos, ameaçados e encarcerados injustamente [2]. Chávez sabe, portanto, que está encurralado, que os venezuelanos o conhecem muito bem e já estão fartos de suas mentiras, de suas truculências e de vê-lo dizer uma coisa hoje para desmentir amanhã, se assim lhe for conveniente politicamente.

Por outro lado, já se sabe das ligações do PT e de funcionários do alto escalão do governo brasileiro com as FARC mas o presidente Lula, malgrado as substanciais provas de envolvimento através dos Encontros do Foro de São Paulo, será poupado, ou melhor, blindado, como vem sendo desde que assumiu o primeiro mandato em 2003.

A política, já disse alguém, é a “arte do possível”. Por isso Uribe fecha os olhos e poupa Lula de uma denúncia formal de envolvimento com as FARC, agradece a Chávez pelo seu pronunciamento e reata relações diplomáticas com o Equador. Por isso também, Rafael Correa mudou seu discurso porque sabe, tanto quanto Chávez, que corre o risco de entrar para a classificação de “países amigos de terroristas” dado pelos Estados Unidos e União Européia. Dependendo comercialmente dos Estados Unidos eles cedem, numa relação de amor e ódio, uma relação tão patológica quanto suas formas de governar.

Chávez está com medo mas, como todos os líderes totalit&aacut e;rios não se importa muito em perder coisas materiais, desde que não perca o poder. Por isso muda o discurso, torna-se compassivo, chora, apela, finge-se de amigo mas sobretudo mente; mente muito e vai continuar mentindo. E é por isto mesmo que este reconhecimento não pode ser simplesmente aceito e a página virada. Não! Se ele não pede para sair, tem que ser julgado e posto na cadeia pelos seus crimes, pois ele é parte dos problemas causados pelas FARC, não só na Colômbia mas em toda a América Latina.

Notas:

[1] Ouça o áudio do agradecimento em http://www.elpais.com/audios/internacional/Uribe/Quiero/reiterar/agradecimientos/Hugo/Chavez/csrcsrpor/20080615csrcsrint_1/Aes/

[2] http://www.payolibre.com/articulos/articulos2.php?id=1433

Escrito originalmente para o Jornal Inconfidência de Belo Horizonte

Obama e McCain

Embora mereça muitas críticas, Jonh McCain pelo menos não passou décadas se acumpliciando com pessoas que odeiam os EUA, mesmo quando foi mantido prisioneiro e torturado, pagando um alto preço por isso.

Agora que os dois partidos finalmente escolheram seus candidatos presidenciais, é o momento para uma sóbria – senão amarga – análise de onde estamos.

Desde 1972, não tínhamos dois candidatos tão dolorosamente inadequados. Quando o dia da eleição chegou naquele ano, não consegui votar nem em George McGovern, nem em Richard Nixon. Fiquei em casa.

Este ano, nenhum de nós pode se dar a esse luxo. Enquanto todo tipo de fofoca acontece na mídia e todo exibicionismo acontece na política, o maior patrocinador do terrorismo no mundo – o Irã – se move passo a passo na direção da construção da bomba atômica.

O momento em que eles conseguirem a bomba será o ponto de não-retorno. A bomba atômica iraniana será a bomba atômica dos terroristas – e eles poderão fazer o 11 de setembro parecer brinquedo de criança.

Todas as opções que estão sobre a mesa neste exato momento serão varridas de lá para sempre. Nossas opções serão ou conceder aos terroristas o que eles exigem – qualquer que sejam suas demandas – ou correr o risco de ver cidades americanas desaparecerem em meio a cogumelos radioativos.

Todas as nossas preocupações atuais, do preço da gasolina e do sistema de saúde ao aquecimento global, repentinamente não terão mais a menor importância.

Tal como os nazistas não consideraram suficiente simplesmente matar as pessoas em seus campos de concentração, mas tiveram antes de humilhá-las e desumanizá-las, assim podemos esperar que os terroristas com armas nucleares nos humilharão e nos forçarão a nos humilharmos, antes que eles finalmente nos matem a todos.

Eles já nos telegrafaram seus golpes com os enforcamentos sádicos de pessoas inocentes e com os vídeos desses enforcamentos, tão populares no Oriente Médio.

Eles já telegrafaram suas intenções de nos comandar com as ameaças de Osama Bin Laden de atacar aqueles lugares nos EUA que não votassem do modo que ele prescrevia nas eleições de 2004.

Os terroristas têm nos dado uma clara imagem de que eles são como Adolf Hitler e os nazistas dos anos 1930 – e nossos “líderes” e a intelligentsia têm ignorado os sinais de alerta como os “líderes” e a intelligentsia dos anos 1930 desprezaram os perigos de Hitler.

Parecemos muito com pessoas navegando o Rio Niágara, esquecidas das cachoeiras à frente. Uma vez atingidas as cachoeiras, não poderemos retornar.

O que isso tem a ver com os candidatos presidenciais? Tem tudo a ver com eles.

Um dos candidatos determinará o que vamos fazer para impedir o Irã de conseguir a tecnologia nuclear – ou se vamos fazer algo além de conversar, como os líderes ocidentais conversaram nos anos 1930.

Há uma grande diferença entre este momento e os anos 1930. Apesar de a falta de preparo militar e decisão política do Ocidente terem permitido três anos de perdas devastadores para a Alemanha nazista e para o Japão imperial, quando toda a indústria e as forças militares ocidentais foram finalmente mobilizadas, as democracias foram capazes de mudar a situação e vencer decisivamente.

Mas não podemos perder uma guerra nuclear por três anos consecutivos e depois nos recuperar. Você não pode sustentar a vontade de resistir por três anos quando você é moralmente arruinado por ameaças e então devastado por bombas nucleares.

Nossa única janela de oportunidade para impedir isso ocorre no período de presidência de quem quer que assuma o poder em janeiro próximo.

Em tempos como estes, não podemos nos dar ao luxo de esperar por nosso candidato ideal ou nos entregar às nossas emoções votando em algum candidato para demonstrar nosso protesto – ao custo de colocar alguém na Casa Branca que não esteja à altura do cargo.

O senador John McCain tem sido criticado nesta coluna muitas vezes. Mas, depois de tudo dito e feito, o senador McCain não passou décadas ajudando e se acumpliciando com pessoas que odeiam os EUA.

Ao contrário, ele pagou um alto preço por resistir aos nossos inimigos, mesmo quando eles o mantiveram prisioneiro e o torturaram. A escolha entre ele e Barack Obama é óbvia.

 

Notas:

Publicado por Townhall.com

Tradução de Antônio Emílio Angueth de Araújo

Nota Redação MSM: mais informações sobre o assunto em http://www.usnews.com/articles/news/2008/01/28/john-mccain-prisoner-of-war-a-first-person-account.html

O discurso de Lula

No seu último discurso na ONU, Lula, o Metamorfose Ambulante, repetiu as bobagens de sempre sobre globalização e pobreza: disse que o mundo de hoje é muito mais desigual do que o de dois séculos atrás (como se tal informação fosse relevante) e também afirmou que, para combater o terrorismo, é preciso lutar contra a fome no mundo.  O discurso de Lula nada tem a ver com a realidade dos fatos; o presidente apenas repetiu as idéias retrógradas do seu partido, que mantém o mesmo caráter autoritário e intervencionista, por mais que extremistas de esquerda pensem o contrário. Na verdade, Lula não mudou significativamente as suas idéias; adaptou-se às circunstâncias do momento, e alterou o seu discurso em um ou outro ponto irrelevante, que apenas engana quem não conhece a estratégia do seu partido, que consiste em dar  uma aparência de democrático a um governo que a cada dia aumenta mais o seu controle sobre a vida do cidadão.

Lula falou em desigualdade na comparação do mundo atual com aquele de dois séculos atrás, e não acrescentou outras informações que refutariam a sua afirmação de que o mundo atual é pior do que o de outrora. A tese de Lula, baseada na consideração de apenas um dado, a desigualdade, é completamente equivocada para a adequada compreensão das diferenças entre as duas épocas em questão. Pois a desigualdade em si não é problema; em um país livre, é natural que haja diferenças, que são resultado da dinâmica do mercado: uma empresa bem sucedida é aquela que satisfaz o consumidor, este sim, o soberano no capitalismo, enquanto no socialismo o soberano é o planejador. Tentar acabar com as desigualdades não é viável nem desejável, pois isso significaria passar por cima dos direitos individuais, já que o Estado precisaria usar a força para tirar de alguns para dar a outros. Além de tudo, a ação do Estado não produziria os efeitos desejados; pelo contrário, criaria uma classe de burocratas parasitários dedicados à distribuição de riqueza. Como afirmou Trotski, o próprio encarregado de distribuir a riqueza não esquecerá de si mesmo… Tal experiência já foi feita nos países socialistas, e os resultados foram catastróficos, mas hoje em dia os debates no Brasil são restritos a um horizonte histórico extremamente limitado. Tudo aquilo que aconteceu em outros lugares e outras épocas parece não ser importante na análise dos nossos problemas atuais, como se nada tivéssemos a aprender da experiência histórica do ser humano. A extrema importância que se dá ao tema da desigualdade é resultado de compreensão inadequada sobre o processo de geração de riquezas. Um país pode ser desigual e também ter ótimos índices de qualidade de vida para o conjunto da sua população. A desigualdade não é incompatível com bons indicadores sociais; pelo contrário, nos países que impuseram o igualitarismo é que não foi possível a geração de riqueza necessária para que se obtivesse um bom padrão de vida. Além disso, falar apenas em desigualdade, sem considerar as outras diferenças entre o mundo de hoje e o do passado, como o fez Lula, é desonestidade intelectual: pois o mundo atual, embora ainda tenha muitos problemas, é consideravelmente mais rico na comparação com qualquer outra época. E a expectativa de vida aumentou, com os progressos tecnológicos. Há ainda o fato de que no mundo de hoje, graças aos avanços tecnológicos, um trabalhador comum tem acesso a bens e serviços que os governantes mais poderosos de alguns séculos atrás sequer imaginavam. É bom lembrar que só não evoluíram os países que praticaram as medidas que o próprio Lula defendeu a vida inteira, como o intervencionismo estatal na economia.

Em relação ao terrorismo, Lula repetiu o seu discurso sobre a fome, que não produziu resultado algum no Brasil. O fracasso do Fome Zero não impediu que Lula propusesse a sua implantação em escala mundial, como se o mundo desse importância aos arrotos de um presidente que governa um país pouco significante sob o aspecto econômico, e, o que é pior, sob o aspecto cultural. As propostas de Lula só poderiam ser impostas por um governo mundial, que violasse a soberania dos países. Lula mostra uma ambição ilimitada de poder, além de ignorância sobre os assuntos que trata: terrorismo nada tem a ver com fome. Pelo contrário, os terroristas a cada dia são mais poderosos porque têm acesso a recursos financeiros e tecnológicos de que não dispunham há anos atrás. E se hoje o terrorismo é um problema cada vez mais preocupante, isso certamente não tem relação com fome: não são os famintos os responsáveis pelo terrorismo; são, sim, os governantes que têm fome de poder.